>Quem te viu, quem te vê

Posted on maio 9, 2011. Filed under: Sem-categoria |

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Vamos dizer que coerência não foi a marca dos últimos anos do governo Lula. O Banco Central (BC), de um lado, e o Ministério da Fazenda, de outro, deram sinais permanentes de descompasso na condução da política econômica, mas ainda não davam demonstrações claras do erro dessa discórdia.
Só ao final do período Lula ficamos sabendo que, tirando o ano recessivo de 2009, a inflação já estava na média dos 6% por ano desde 2008.
Nesse cenário, o BC deveria há muito estar preocupado com os riscos de reindexação da economia, mas várias historinhas começaram a ser contadas desde o início do ano passado, com o intuito de mostrar que o mercado estava excessivamente preocupado e que a inflação não era isso tudo que se dizia.
Primeiro, houve um argumento de que a política monetária estava mais eficiente, que não se precisaria subir tanto mais a Selic para conter a inflação. Isso para justificar a parada de aumento que tivemos em meados do ano passado.
Depois, ficamos sabendo que na verdade não era bem por uma suposta potência da taxa de juros que se parou de subir a taxa, mas porque havia medo do governo aumentar a Selic no momento em que se sabia haver um descasamento no sistema financeiro, que depois se mostrou ser causado pelo Banco Panamericano.
Passado esse momento, no final de dezembro o governo sacou outra arma, dessa vez as medidas macroprudenciais. Argumentou-se, por todos os lados, que era esse o meio moderno de combate à inflação e, muito desgostoso, o banco novamente desdenhou de quem não acreditava nisso.
Essa política foi seguida até recentemente, quando o BC esqueceu tudo o que escreveu ao longo do ano passado e no início deste ano e passou a acreditar num ciclo longo de aumento dos juros, como supostamente havia sido antes desse momento de experimentalismo do banco, para maior satisfação do mercado.
Mas, afinal, a taxa de juros é ou não mais potente? As medidas macroprudenciais que foram tão ferreamente defendidas foram descartadas por que motivo? Essas perguntas são respondidas pelo mercado há muito tempo.
Primeiro, a Selic não parece ser um instrumento assim tão potente. Caso contrário, não teríamos esse perfil de inflação sistematicamente acima da meta desde 2008. Segundo, as medidas macroprudenciais são ferramentas paliativas e distorcivas e não funcionam para conter um amplo processo inflacionário.
Diante desse banco que mudou tanto de opinião ao longo do último ano, o que pensar da nova decisão de um “longo” processo de ajuste na taxa de juros? Com a inflação chegando a 7,5% em poucos meses um ajuste de 0,25 ponto percentual é apenas mais do mesmo Banco Central que estamos vendo desde o ano passado.
É a manutenção da crença de que dá para manter um bom crescimento e conseguir levar a inflação para 4,5%, tônica do atual governo. Com essa decisão, a sinalização claramente é de uma inflação acima da meta no próximo ano.
Mas como o BC tem se mostrado uma metamorfose ambulante à la Lula, quem sabe no futuro finalmente o experimentalismo seja esquecido e ele volte a ser o que era antes.

Sérgio Vale
Sérgio Vale é economista-chefe da MB Associados
Fonte: Brasil Econômico

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