O senador petista Paulo Paim (RS) tem a cara de uma causa. A causa dos aposentados. Defende a classe há arrastados 30 anos. Teve muitos embates. Mas nenhum deles deixou-o mais desgostoso do que a guerra que o governo Lula abriu contra dois projetos que logrou aprovar há duas semanas.

Paim diz ter saudades do “tratamento respeitoso” que lhe dispensavam o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-ministro Pedro Malan (Fazenda).


O Malan sempre foi muito respeitoso. O próprio presidente Fernando Henrique, devo reconhecer, sempre foi respeitoso”, disse Paim ao blog. “[…] Nunca enfrentei um debate como esse de agora, desqualificado.” Em público, o mínimo que os ministros de Lula disseram dos propetos de Paim é que são “irresponsáveis”. Em privado, foi dito muito mais.



Na linha de frente das críticas, estão dois ministros companheiros: Paulo Bernardo (Planejamento) e Luiz Marinho (previdência), ambos petistas. “Fui deputado federal junto com o Paulo Bernardo. Fui sindicalista com o Luiz Marinho.


Fui vice-presidente e secretário-geral da CUT. O mínimo que espero de companheiros é um tratamento respeitoso, sem ofensa pessoal”, queixa-se Paim. Abaixo, a entrevista:



– Uma de suas propostas estende os reajustes do salário mínimo aos aposentados. Diz-se que não há dinheiro. Concorda?

Não, em hipótese nenhuma. Venho discutindo esse tema não é de hoje. Na bancada do PT e nas instâncias de governo. Avisei que a matéria seria votada. Todos sabiam.



– Avisou aos ministros Bernardo e Marinho?

Claro. Até o Palácio do Planalto.



– Com quem falou no Planalto?

Houve reunião da bancada do PT com o presidente Lula, há umas duas semanas. Falei com ele, avisei.



– E o presidente?

Ele disse: ‘Olha, Paim, vou pedir pra que o ministro Marinho converse com você sobre isso. Tivemos duas reuniões. Não avançou um entendimento.



– Estima-se um déficit previdenciário de R$ 44 bilhões para 2008. Isso não o preocupa?

Está totalmente equivocado esse raciocínio. Discuti com eles isso. Primeiro: eu tenho uma PEC [proposta de emenda à Constituição] que trata do problema. É a PEC 29. Quero aprovar. O que diz? Recursos da seguridade social ficariam na seguridade social. Em 2007, o superávit da seguridade, onde está a Saúde e a Previdência, foi de R$ 62,7 bilhões. Se esse dinheiro ficasse na seguridade, não teríamos problema. Mas o governo usa para fazer superávit primário. Acontece há décadas. Não critico apenas esse governo. Estou citando fatos. Os dados não são meus. São da Anfip [Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal].



– Mas se acontece há décadas, acha que vai mudar agora?.

Vou te dizer o que o Malan me disse: ‘Paim, vocês têm toda razão. Tudo bem. Então, quando vocês chegarem ao governo, façam. No nosso governo, não vamos fazer.’ O pior é que chegamos ao governo e continuamos não fazendo.



– O vaticínio do Malan está se concretizando?

O pior é que é verdade. E tínhamos condições de fazer. Nos últimos 15, 20 anos, nunca a economia esteve tão bem. Conseqüentemente, nunca se arrecadou tanto para o caixa da seguridade social. Mais de 8,5 milhões de pessoas que estavam na informalidade tiveram suas carteiras assinadas. Nós estamos arrecadando mais. Se quiser, dá pra fazer.



– Outro projeto seu acaba com o fator previdenciário, criado sob FHC. O governo diz que não dá.

Claro que dá! Basta adotarmos a idade mínima [para aposentadoria]. Tive a ousadia de tratar desse tema numa outra proposta de emenda à constitucição, que também está para ser votada. Mostrei para o ministro [Luiz] Marinho. Eu tiro o fator previdenciário, mas coloco a idade mínima.



– Qual seria a idade mínima para aposentadoria?

Para quem entrou no sistema a partir de 2003, seria de 55 anos para mulheres e 60 para homens. Exatamente como é para o servidor público. Estou querendo votar. Mostrei a proposta também param as centrais sindicais. É a primeira vez que o Congresso vai enfrentar o debate da idade mínima desde 1999.



– Acha que a idade mínima substitui o fator previdenciário?

Claramente. Acabaria com essa novela. É bom para todo mundo. Todos sabem que é esse o caminho. Fator previdenciário só existe no Brasil. Na oposição, o PT foi vigorosamente contra. Fizemos vigílias, distribuímos cartazes com os nomes de quem votou a favor…



– Por que combate o fator previdenciário?

Temos hoje milhares de pessoas se aposentando equivocadamente pelo fator previdenciário. Essas pessoas vão se arrepender no futuro. Qual é o raciocínio? O camarada que tem 45, 48 anos decide se aposentar pelo fator. Recebe aposentadoria num valor que é a metade do que ele teria direito. Volta a trabalhar. Fica com dois vencimentos, o salário e a aposentadoria. Só que, à medida que os anos avançarem, o salário vai acabar. E vai ter que viver com a aposentadoriazinha pela metade.



– O governo também diz que o fim da CPMF diminuiu a arrecadação.

Fui dos que defenderam a manutenção da CPMF da tribuna. Perdemos. O que aconteceu? Mesmo sem a CPMF, a Receita Federal está arrecadando muito mais do que arrecadava no mesmo período do ano passado, com CPMF. Prova de que a economia está bombando, como diz a moçada. A Receita arrecada como nunca. Se temos condições de investir em todos os programas sociais, por que não olhar para os aposentados, que trabalharam durante toda uma vida e colaboraram para que chegássemos a esse momento.



– Acha que seus projetos serão rejeitados na Câmara?

Muito difícil. Seria um absurdo. Creio que a Câmara não vai entrar nessa. Acho que o melhor que o governo faria seria apresentar alguma contraproposta.



– Admite discutir?

Claro que sim. Ouço dizer que já falam em alternativas. Não sou sectário. Vejo o que é melhor para o país. Se vierem com uma proposta concreta, vamos discutir. O que não dá é imaginar que vai ficar como está. Pode-se derrotar a mim, aos senadores e aos deputados. Mas não derrotam o movimento dos aposentados. Vai ficar um embate permanente. Até que venha uma proposta aceitável.



– Quantos aposentados há no Brasil?

Mais ou menos 25 milhões. Desses, entre 17 milhões e 18 milhões estão na faixa do salário mínimo. Uma faixa que, há cinco anos, tinha 12 milhões de aposentados. A tendência é todo mundo passar o ganhar o salário mínimo a partir de 2030. O que vai acontecer? As pessoas vão se convencer de que o melhor é contribuir apenas sobre um salário mínimo e fazer uma previdência privada. Há um desestímulo à previdência pública. Esse é o jogo.



– Está decepcionado?

Estou nessa luta há quase três décadas. Já vi de tudo. Mas claro que não está sendo o que eu sonhava que podia acontecer, em matéria de Previdência, num governo nosso.



– Os ministros chamam seus projetos de irresponsáveis. O que acha?

Isso eu confesso que não gostei. Gostaria que o debate fosse mais respeitoso. Não quis responder no mesmo nível. A ofensa pessoal desqualifica a eles e a mim, se eu entrasse nesse jogo.



– No governo passado, foi tratado assim?

Nunca. O Malan sempre foi muito respeitoso. O próprio presidente Fernando Henrique, devo reconhecer, sempre foi respeitoso. Nunca enfrentei um debate como esse, desqualificado. Fui deputado junto com o ministro Paulo Bernardo. E fui sindicalista com o ministro Luiz Marinho. Fui vice-presidente e secretário-geral da CUT. O mínimo que espero de companheiros é um tratamento respeitoso, sem ofensa pessoal.



– Em ano eleitoral é difícil derrotar melhorias previdenciárias, não?

Sem apresentar nenhuma alternativa, acho que é difícil.



– Restaria ao presidente vetar.

O que não é bom. Falo como parlamentar da base do governo. Nem quero pensar nisso. Acho que dá para construir algo que atenda ao interesse de todos.

Fonte: Blog do Josias/Folha Online