Arnaldo Jabor

>Nossos dias melhores nunca virão?

Posted on dezembro 29, 2010. Filed under: Arnaldo Jabor |

>Por Arnaldo Jabor*

Ando em crise, numa boa, nada de grave. Mas, ando em crise com o tempo. Que estranho “presente” é este que vivemos hoje, correndo sempre por nada, como se o tempo tivesse ficado mais rápido do que a vida, como se nossos músculos, ossos e sangue estivessem correndo atrás de um tempo mais rápido.
As utopias liberais do século 20 diziam que teríamos mais ócio, mais paz com a tecnologia. Acontece que a tecnologia não está aí para distribuir sossego, mas para incrementar competição e produtividade, não só das empresas, mas a produtividade dos humanos, dos corpos. Tudo sugere velocidade, urgência, nossa vida está sempre aquém de alguma tarefa. A tecnologia nos enfiou uma lógica produtiva de fábricas, fábricas vivas, chips, pílulas para tudo.
Temos de funcionar, não de viver. Por que tudo tão rápido? Para chegar aonde? A este mundo ridículo que nos oferecem, para morrermos na busca da ilusão narcisista de que vivemos para gozar sem parar? Mas gozar como? Nossa vida é uma ejaculação precoce. Estamos todos gozando sem fruição, um gozo sem prazer, quantitativo. Antes, tínhamos passado e futuro; agora, tudo é um “enorme presente”, na expressão de Norman Mailer. E este “enorme presente” é reproduzido com perfeição técnica cada vez maior, nos fazendo boiar num tempo parado, mas incessante, num futuro que “não pára de não chegar”.
Antes, tínhamos os velhos filmes em preto-e-branco, fora de foco, as fotos amareladas, que nos davam a sensação de que o passado era precário e o futuro seria luminoso. Nada. Nunca estaremos no futuro. E, sem o sentido da passagem dos dias, da sucessibilidade de momentos, de começo e fim, ficamos também sem presente, vamos perdendo a noção de nosso desejo, que fica sem sossego, sem noite e sem dia. Estamos cada vez mais em trânsito, como carros, somos celulares, somos circuitos sem pausa, e cada vez mais nossa identidade vai sendo programada. O tempo é uma invenção da produção. Não há tempo para os bichos. Se quisermos manhã, dia e noite, temos de ir morar no mato.
Há alguns anos, eu vi um documentário chamado Tigrero, do cineasta finlandês Mika Kaurismaki e do Jim Jarmusch sobre um filme que o Samuel Fuller ia fazer no Brasil, em 1951. Ele veio, na época, e filmou uma aldeia de índios no interior do Mato Grosso. A produção não rolou e, em 92, Samuel Fuller, já com 83 anos, voltou à aldeia e exibiu para os índios o material colorido de 50 anos atrás. E também registrou, hoje, os índios vendo seu passado na tela. Eles nunca tinham visto um filme e o resultado é das coisas mais lindas e assustadoras que já vi.
Eu vi os índios descobrindo o tempo. Eles se viam crianças, viam seus mortos, ainda vivos e dançando. Seus rostos viam um milagre. A partir desse momento, eles passaram a ter passado e futuro. Foram incluídos num decorrer, num “devir” que não havia. Hoje, esses índios estão em trânsito entre algo que foram e algo que nunca serão. O tempo foi uma doença que passamos para eles, como a gripe. E pior: as imagens de 50 anos é que pareciam mostrar o “presente” verdadeiro deles. Eram mais naturais, mais selvagens, mais puros naquela época. Agora, de calção e sandália, pareciam estar numa espécie de “passado” daquele presente. Algo decaiu, piorou, algo involuiu neles.
Lembrando disso, outro dia, fui atrás de velhos filmes de 8mm que meu pai rodou há 50 anos também.
Queria ver o meu passado, ver se havia ali alguma chave que explicasse meu presente hoje, que prenunciasse minha identidade ou denunciasse algo que perdi, ou que o Brasil perdeu… Em meio às imagens trêmulas, riscadas, fora de foco, vi a precariedade de minha pobre família de classe média, tentando exibir uma felicidade familiar que até existia, mas precária, constrangida; e eu ali, menino comprido feito um bambu no vento, já denotando a insegurança que até hoje me alarma. Minha crise de identidade já estava traçada. E não eram imagens de um passado bom que decaiu, como entre os índios.
Era um presente atrasado, aquém de si mesmo. A mesma impressão tive ao ver o filme famoso de Orson Welles, It”s All True, em que ele mostra o carnaval carioca de 1942 -únicas imagens em cores do País nessa década. Pois bem, dava para ver, nos corpinhos dançantes do carnaval sem som, uma medíocre animação carioca, com pobres baianinhas em tímidos meneios, galãs fraquinhos imitando Clark Gable, uma falta de saúde no ar, uma fragilidade indefesa e ignorante daquele povinho iludido pelos burocratas da capital. Dava para ver ali que, como no filme de minha família, estavam aquém do presente deles, que já faltava muito naquele passado.
Vendo filmes americanos dos anos 40, não sentimos falta de nada. Com suas geladeiras brancas e telefones pretos, tudo já funcionava como hoje. O “hoje” deles é apenas uma decorrência contínua daqueles anos. Mudaram as formas, o corte das roupas, mas eles, no passado, estavam à altura de sua época. A Depressão econômica tinha passado, como um grande trauma, e não aparecia como o nosso subdesenvolvimento endêmico. Para os americanos, o passado estava de acordo com sua época. Em 42, éramos carentes de alguma coisa que não percebíamos. Olhando nosso passado é que vemos como somos atrasados no presente. Nos filmes brasileiros antigos, parece que todos morreram sem conhecer seus melhores dias.
E nós, hoje, nesta infernal transição entre o atraso e uma modernização que não chega nunca? Quando o Brasil vai crescer? Quando cairão afinal os “juros” da vida? Chego a ter inveja das multidões pobres do Islã: aboliram o tempo e vivem na eternidade de seu atraso. Aqui, sem futuro, vivemos nessa ansiedade individualista medíocre, nesse narcisismo brega que nos assola na moda, no amor, no sexo, nessa fome de aparecer para existir. Nosso atraso cria a utopia de que, um dia, chegaremos a algo definitivo. Mas, ser subdesenvolvido não é “não ter futuro”; é nunca estar no presente.



*Cineasta e escritor Arnaldo Jabor, articulista http://www.arnaldojabor.blogger.com.br

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>A obra de arte deve ser exaltante

Posted on dezembro 22, 2010. Filed under: Arnaldo Jabor |

>Por Arnaldo Jabor

Ao apagar das luzes, fui ver a Bienal. Quase não escrevo sobre ela, mas não agüentei, apesar de não ser critico de arte. A sensação dominante quer tive foi de ruínas ou de despejos da civilização. Saí triste. Os trabalhos repetem os mesmos códigos e repertórios: terra arrasada, materiais brutos e sujos, desarmonia, assimetria, uma vergonha de ser “arte”, vergonha de provocar sentimentos de prazer. A fruição poética é impedida, como se o prazer fosse uma coisa reacionária, “alienada”, ignorando o “mal do mundo”, que tem de ser esfregado na cara do espectador para que ele não esqueça o horror que nos assola.
Há um propósito de evitar qualquer transcendência artística. Um critico escreveu: “O paradigma romântico foi desmantelado no século 20, porque apresenta a arte como algo universal, acima da realidade social e política”.
Ou seja, a razão maior da arte, que é justamente esse mistério que aponta para “as coisas vagas” (como escreveu Paul Valéry) sem as quais não há reflexão poética ou filosófica, foi jogada fora, em nome de uma racionalização criada para substituir nossa impotência política real.
Fui andando pelo pavilhão maravilhoso do Niemeyer, pensando que o edifício “modernista” era superior a qualquer panfletinho ali exposto.
Pensei que o império da sordidez mercantil, a ignorância no poder, o fanatismo do terror, a boçalidade cultural, toda a tempestade de bosta que nos ronda está muito além do alcance critico de qualquer “denúncia” artística. Não adianta mais “chocar” ou “conscientizar” ninguém. Nada que haja na Bienal nos choca mais que homens-bomba explodindo discotecas ou a fome na África ou a lama das favelas e periferias. Nada. Os gestos enraivecidos da antiarte nem arranham a pele do mundo. Nesta Bienal vi um parque temático de deprimidos, um muro de lamentações inúteis – a melancolia como “denúncia” de uma vida sem solução, quando a grande critica ao Ocidente é feita pelos terroristas islâmicos. A infeliz sentença de Stockhausen chamando o 11 de setembro de “obra de arte” tem sim um bruto fundo de verdade. Nada pode explicar ou evitar aquele horror. Nunca imaginávamos que o século 21 seria parecido com o século 7, quando Maomé se declarou o único profeta.
Intelectuais e artistas vivem em pânico, pois o tempo de sínteses se extinguiu. Os acontecimentos estão incompreensíveis e, no entanto, óbvios demais. Claro que os artistas contemporâneos não podem ignorar o horror do mundo e têm de acusar o golpe. Sim, mas mesmo em tempos terríveis, há que se buscar alguma transcendência, esperança e vitalidade.
Tropeçando em perigosas “instalações”, pensei que a morte da “aura” da arte é menos aceita do que pensávamos. Hoje, muitos artistas se vêem como ex-profetas abandonados e passaram a usar a luz da “aura” como um halo, como uma coroa de espinhos para sua solidão. O artista quer virar obra de arte. E tudo faz para esquecer seu abandono, mesmo que seja expor seus excrementos numa latinha. E vemos que ele não abriu mão da representação, mas cultiva-a ao avesso da beleza, como uma doença favorita. Ele é a representação, ele é a paisagem.
Acho que nesta desistência da arte transcendental há um complexo de inferioridade diante da tecno-ciência, que está avassalando nossas vidas. Nietzsche não concordaria: “A arte é mais poderosa que a Ciência, pois ela quer a vida, enquanto o objetivo final do conhecimento é o aniquilamento.” Nietzsche escreveu isso no fim do século passado, querendo dizer que, por trás da busca científica e racional da verdade, mora o desejo da morte, de esgotamento da vida, por uma letal explicação de tudo.
Claro que não tenho nível para aprofundar este tema; mas temos hoje esta metástase digital hipertecnológica ao lado de um indigente, tuberculoso, desempenho artístico do mundo. Temos de um lado o mercantilismo escroto de Hollywood, dos teatrões, das galerias chics ou dos best-sellers. Do outro, a solidão melancólica das Documenta, os bodões negros dos guetos da revolta “oficial”.
Sem duvida, a grandeza da arte contemporânea é de se misturar à vida, sem suporte, mas sem negá-la de fora, atacando-a com rancor por sua falta de sentido claro. Nisso, o Wikileaks mata a pau.
Movidos pela idéia socrática de que a arte tem de ser subordinada à Razão, os artistas caíram numa denúncia melancólica das impossibilidades. Não há futuro para esta idéia de arte , seja ela digital, mercantil, iluminista ou o cacete a quatro. A celebração dionisíaca do existir não pode ser considerada frescura ou alienação.
Prevaleceu a vertente “triste” do modernismo, a vertente “conceitual” que joga sobre o “mal do mundo” apenas uma ideologia nevoenta de condenações sem nome, apenas uma arte enojada contra o mal-estar da civilização.
Por que a melancolia seria mais profunda que a alegria? Como explicar Fred Astaire, Busby Berkeley, “Cantando na chuva”, a arte pop, o jazz? Depois do pop, será que uma “Aids conceitual” não atacou tudo, depauperando a luta? Será que não se esgotou a denúncia do feio pelo “mais feio”, que odeia a vida real, por adesão a um impossível finalismo? O “novo” não poderia ser um “belo” que denuncia , com sua luz, a injusta vida?
Precisamos de arte, como uvas e frutos e danças e como um coro de Silenos, de Dionísios, pois a ciência e a razão estão querendo chegar até os ossos da “essência”. A arte é a ilusão aceitada, a clareza feliz de que a aparência é o lugar do humano e que só nos resta essa hipótese de felicidade num planeta gelado. Não a arte-espetáculo, mercadoria de ver, mas a arte como ritual de embelezamento da vida. Nietzsche: “A ilusão é a essência em que o homem se criou.”
Lembrei-me então de uma frase de Stravinsky: “A obra de arte deve ser exaltante”. E uma de Artaud: “A arte não é a imitação da vida; a vida é que é a imitação de “algo” transcendental com que a arte nos põe em contato”. Por isso, não gostei da Bienal. Fonte: A Gazeta
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>A segunda entrevista do bandido

Posted on dezembro 1, 2010. Filed under: Arnaldo Jabor |

>Por Arnaldo Jabor

-Em maio de 2006, tu me entrevistou…Estou lembrado da tua cara… Saiu até no Harper´s Magazine…em inglês…

Agora estão me mudando de Catanduvas, acho que para Roraima, sei lá. Mas, creia que eu não ordenei ataque algum, que não sou burro. Você acha que eu ia queimar ônibus e jogar a população contra nós? Isto é coisa de traficas idiotas…Na época, você me perguntou como entrei no crime e eu te disse que eu era invisível desde menino…Vocês nunca me olharam durante décadas… E olha que era mole resolver o problema da miséria…O diagnostico era óbvio: migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias…A solução é que nunca vinha…O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Nós só aparecíamos nos desabamentos de barracos ou nas musicas românticas sobre a “beleza dos morros ao amanhecer”, essas coisas…Os policiais eram considerados bandidos e nos éramos heróis, lembra? “Vitimas da miséria”. É; mas quem fez o crime crescer não foi a miséria; foi o capitalismo, cara. Com a multinacional do pó, ficamos ricos e as armas chegaram…Aí começou o “que horror!”, “que medo!” entre vocês do asfalto. Nós fomos o inicio tardio de vossa consciência social…

-Como assim?

-Nós somos filhos tortos do crescimento econômico; e vocês também. Nosso enriquecimento e virulência obrigaram vocês a se modernizarem na repressão. De certa forma, vocês aprenderam conosco, numa espécie de “formação reativa dialética” Viu, como sou culto?…Li centenas de livros em Catanduvas.

-Sim, mas você que viveu na barra pesada, me diga, qual é a solução?

-Vocês só chegam a algum sucesso se desistirem de defender a “normalidade”. Olha aqui, mano, não há mais solução! A própria idéia de “solução” já é um equivoco pequeno burguês…há há …é filosoficamente uma esperança vã!

Mas, vou ser franco contigo, na boa, na moral: estamos todos no centro do “Insolúvel”. Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira.

Só que nós sabemos que não há saída. Só a morte ou a merda. E nós já trabalhamos dentro delas. A morte para vocês é um drama cristão numa cama. A morte para nós é o “presunto” diário, desovado na vala…Vocês intelectuais não falavam em “luta de classes”, em “seja marginal seja herói?” Pois é: somos nós! Há há…

Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivada na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro “Alien” escondido nas brechas da cidade. Você não ouve as gravações feitas “com autorização da Justica?” Pois é. È outra lingua. Estamos diante de uma espécie de Pós-Miséria. Isso. Há uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, celulares, internet, armas modernas. É a merda com “chips”, com “megabytes”. Meus comandados são uma mutação social, são fungos de um grande erro sujo.

-O que mudou nas periferias?

-Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem 40 milhões de dólares como o Beira Mar não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel. Quem vai queimar essa mina de ouro, tá ligado?

Vocês são o Estado quebrado, dominado por incompetentes.

Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produtos vêm de fora; somos globais.

– Você acha que o caminho é este?

-Vocês estão fazendo uma crítica da própria incompetência. Este negocio das UPPs é muito bom. É a primeira coisa imaginosa que apareceu. Mas, se não houver uma reforma geral das instituições, as UPPs podem morrer na praia. Elas mantêm o paciente vivo, mas não combatem a doença original.

Tem de haver uma reforma radical do processo penal do país, tem de haver comunicação e inteligência entre policias municipais, estaduais e federais, programas sociais e educação. Tudo bem…agora melhorou muito; aumentou o pragmatismo e a eficiência. Nós sempre estivemos no ataque; vocês na defesa. Agora tudo se inverteu. Parabéns.

A repressão aprendeu muito conosco. A policia e a política aprenderam com o excesso de horrores que já produzimos nos últimos 30 anos, aprenderam com os tremores da população, com os ônibus pegando fogo, com as cabeças cortadas, com os micro ondas torrando os X-9s , aprenderam que não há mais solução e sim “processo” e por isso vocês estão ganhando terreno. Parabéns. Mas, agora como se diz no Exercito, está na hora do “aproveitamento do êxito”. Não adianta tomar o morro e depois sair, não adianta matar, celebrar vitórias, não adianta nada se…

-Sim, o que devem fazer as forças policiais?

-Vou dar um toque, mesmo contra mim. Escreve ai: peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas.

Isso não é assunto para policia não. Isto é uma questão de Estado, é tão importante quanto impedir o desmatamento. Está havendo uma mudança psicológica na população. Faz parte do crescimento econômico. Não é bom para o mercado uma zorra como a nossa. A produção no mundo está nos obrigando à modernização e à democracia. Eu estou falando como um cientista político porque sou um cientista sobre mim mesmo há, há… Meu destino está traçado, o sangue esta grudado em mim, mas o destino de vocês também está. Eu vejo hoje muito mais do que via, mas vocês também têm de mudar. Estou lendo o Klausewitz – “Sobre a Guerra” e digo que vocês não podem esperar uma vitória total, solução, a paz em Ipanema e o mundo voltando atrás. Nunca mais.

É com o no Oriente Médio, com os homens-bomba. Nunca haverá uma vitória clássica. Dá para melhorar, urbanizar, civilizar, mas o mundo de hoje tem um preço trágico que todos terão de pagar. Todos vamos conviver com a própria miséria.

De qualquer forma, parabéns…por linhas tortas chegaram lá. A historia não é uma linha reta. É um ziguezague.

Vocês nunca terão uma solução completa, mas, ao menos, já conhecem o problema…

Vamos lá… Vou vazar para Roraima…mas, olha, cara: não há mais segurança máxima na vida…

Bye Bye, Catanduvas…

Fonte: A Gazeta

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>O PMDB é coisa nossa,muito nossa…

Posted on novembro 24, 2010. Filed under: Arnaldo Jabor, PMDB |

>Por Arnaldo Jabor

“Sem nós, ela não faz nada! Não pensem vocês que estamos de brincadeira. Demos um tempo no “blocão” para não assustar a madame ainda, mas, qualquer coisa a gente volta a ter 202 deputados no mínimo na Câmara. Esses soviéticos não aprendem… Tentaram enrolar o PTB, logo com quem – o cobra criada Jefferson que os botou para correr. E agora acham que vamos topar outro petebista mandando na Comissão Mista do Orçamento , como quer d. Dilma? Aquele Gim Argello que não foi nem eleito, lugar tenente do Roriz? Sei que o plano da presidente (a) é combater nosso excesso de poder ; sei que ela quer “homeopaticamente” desfazer nossos esquemas (que chamam de “corrupção”…) com mais “corrupção” (“similia similibus curantur” – sei latim, meu filho). Não adianta…a gente coopta quem aparecer, principalmente esse ai que nem foi eleito, lá do buraco do Roriz…) e se bobear, novo “blocão” pois, além dos “nanicos”, nos temos os grandes mestres, os faixas pretas do país: Sarney, o eterno, Renan, Jucá, o impalpável Eduardo Cunha, tantos…Eles sabem nos comandar, eles sabem o que querem….E tem mais: agora, estamos no Executivo.. Nosso comandante Temmer conquistou a posição ideal que sempre almejamos: a vice presidência. O vice é tudo. O presidente (a) é alvo, o vice pula de lado e escapa das flechas. O presidente (a) é culpada e o vice, observador isento. E o Temmer não é o tipo de vice que “não aporrinha”, como quis o Serra; nós aporrinharemos, sim.

Líderes do PMDB

Esses comunas pensam que a gente é babaca. São séculos de aprendizado. O PMDB é uma das mais belas florações de nossa historia.

Temos interesses, claro. Queremos cargos, muitos cargos e no mínimo 6 ministérios importantes porque, sem nós, não tem comuna que se dê bem.

Não é assim que essa tigrada do PT fala : “os fins justificam os meios?”. Pois é, nós somos os meios. No entanto, meu caro, os fins são deformados pelos meios e de “meios” acabaremos sendo “fins”.Viu como sou profundo? Não há casamento sem interesse. É belo e progressista o interesse. O desprendimento, a honestidade alardeada é hipocrisia de teóricos .

E nossos fins são sábios, experientes; são frutos de uma grande tradição brasileira que os maldosos chamam de “corrupção”, quando são hábitos incrustados em nossa vida como a cana, o forró, a obediência dos filhos que seguem nosso exemplo, nossos bigodes que chamam de bregas, as ancas das amantes risonhas com jóias de ouro tilintando em pescoços e pulsos, diante da palidez infeliz de nossas esposas…Vocês não entendem que isso é a cara do pais? Vocês reclamam de nossa voracidade. E os milhares de famintos que invadiram o batatal do poder para comer tudo, os ex-pelegos hoje de gravata?

O PMDB é um exército de amigos unidos – qual o mal? Admire a beleza superior deste imenso patrimônio espiritual que nós possuímos, tanto em nosso partido como nas alas aliadas. É uma beleza feita de amizades, famílias amplas, burocratas cooperativos. E tem mais: nós do PMDB temos um projeto sim para este pais…Um projeto muito mais pragmático, mais progressista que esse dogmas de 1917 do Dirceu e outros abstrações ridículas como “igualdade”, “controle social” , “comitês centrais”, “palavras de ordem”.

Nosso projeto é mais Brasil…”São coisas nossas, muito nossas…” como cantou o Noel. Nosso projeto é uma girândola de malandragens, de negociatas que deixam cair pelas brechas, pelas frestas das maracutaias migalhas de progresso. È isso: tudo que houve de bom no país foi fruto de malandragens no encontro entre o privado e o publico.

Não , cara, não há corrupção no PMDB -trata-se apenas da continuação de um processo histórico. O dinheiro que arrecadamos em emendas do orçamento, em gorjetas justas de empresas e burocratas, esse dinheiro sempre foi a mola do crescimento do país. Haveria Brasília sem ela? Onde estaríamos nós – na roça de um país agro pastoril? Esta é a eterna verdade desde a Colônia, tão eterna quando a miséria que sempre haverá. Querem o quê? Que fiquemos magros também, que dividamos nossas conquistas com os que nada têm, querem socializar a miséria? Quando eu faço uma piscina azul em meio à seca, não é crueldade, porque é preciso que alguém tenha piscina na caatinga para que a dor dos miseráveis seja suportável. A vida do pobre ganha um sentido hierárquico: ele está embaixo, mas se consola porque alguém vive feliz em cima.

De modo que não nos venham com papos de inclusão social. Ademais, é impossível salvá-los (como alguns poucos ainda pensam no PT). São 40 milhões de pobres chocados em quatro séculos de tradição patrimonialista da boa. Vocês verão que isso é “natural, a natural “survival for the fittest” (“sobrevivência do mais forte”, como bem traduziu meu filho do MIT)…

Vamos olhar para a outra face da beleza: a alegria de ver a grande arte dos lucros fabulosos, as mandíbulas salivando a cada grande negócio fechado, o encanto dos shoppings de luxo, as velozes paixões dos cartões de crédito, o eufórico alarido dos restaurantes, os roncos de jet-skis à beira mar,os gemidos das amantes no cetim, a euforia dos almoços de conchavos… Tudo isso doura o nosso progresso.

A classe dominante deste país é uma grande família, unida por laços de amizade total, mesmo que definhe sob nossos pés a massa de escravos em seus escuros mundos.

Nós somos muito mais o Brasil profundo do que esse bando de comunas que chegaram ai, com um sarapatel de idéias feitas por um leninismo mal lido e um getulismo tardio…

No entanto, sou otimista – acho sim que a aliança PT-PMDB poderá ser doce e linda. Mas, do nosso jeito. Tudo bem que censurem a imprensa e coisas menores (é ate pratico para nos…), mas na infra-estrutura de nosso passado de donatários ninguém toca. Temos no peito o orgulho de proteger a sobrevivência da linda tradição de nossa colonização portuguesa.

O PMDB é a salvação da democracia; suja, mas muito nossa.”

Fonte: A Gazeta

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>O progresso da decadência

Posted on novembro 17, 2010. Filed under: Arnaldo Jabor |

>Por Arnaldo Jabor
“O pais perdeu a inteligência e a consciência moral. Não há principio que não seja desmentido nem instituição que não seja escarnecida. Já não se crê na honestidade dos homens públicos. A classe media abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas idéias aumenta a cada dia. A agiotagem explora o juro. A ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro. O numero das escolas é dramático. A intriga política alastra-se por sobre a sonolência enfastiada do pais. Não é uma existência; é uma expiação. Diz-se por toda a parte: “O pais está perdido!”.(…) Por isso, aqui começamos a apontar o que podemos chamar de “o progresso da decadência”

Não fui eu quem escreveu isso. Foi José Maria da Eça de Queiroz, em 1871. Esta era a introdução de “As Farpas” que lançou com Ramalho Ortigão, ainda em Coimbra. Tinha pouco mais de 20 anos quando começou a esculachar em panfletos a mediocridade portuguesa no século 19 que nos legou esta herança lamentável. Nada mais parecido conosco.

Esses textos de Eça, reunidos sob o titulo de “Uma Campanha Alegre” foram justamente os primeiros que me caíram na mão. Fiquei deslumbrado com a critica social e de costumes. Não sabia que isso existia eu era um menino. Creio que minha vida de jornalista de TV, radio e jornal foi remotamente influenciada por ele. E revendo sua vida na internet, lembrei que Eça de Queiroz nasceu em 25 de novembro de 1845 -daqui a uma semana. Assim, resolvi escrever de novo sobre ele.

Esse homem foi a maior paixão de minha vida. Com ele aprendi tudo: minha pobre escritura, o ritmo de seu texto, a importância do humor, do sarcasmo, e muito sobre a nossa ridícula loucura ibérica. Depois, descobri um livro roído de traças na casa de meu avô: “O primo Basílio”, que minha avó tentou proibir (“Isso não é para criança!…”). Li-o, claro, e minha vida mudou. Era como se toda a névoa confusa da infância, minha família difícil de entender, vagas tias, vultos, rezas, tristes salas de jantar, secos padres jesuítas, tivesse subitamente se dissipado. O mundo ficou claro, através das personagens de Eça. Ali estavam explicados os arrepios de horror diante do teatrinho pequeno-burguês do Rio. O primo Basílio chegava com sua vaidade brutal e encarnava os cafajestes brasileiros, o padre Amaro me decifrava a tristeza sexual das clausuras do Colégio Jesuíta, o Conselheiro Acácio era a burrice solene de professores e políticos, Damaso Salcêde espelhava centenas de mediocridades gorduchas, Gonçalo Ramirez era o frágil caráter de hesitantes como eu. E vinha Thomaz de Alencar com sua literatice melancólica, vinha o banqueiro Cohen, esperto e corno, flutuava no ar o cheiro enjoado da Titi Patrocínio da “Relíquia” e, claro, as coxas de Adélia, sem falar no supremo frisson do famoso “minette” do primo Basílio na “Bovary” Luiza (razão básica da proibição alarmada de minha avó). E não só o desfile dos medíocres, mas as fileiras dos heróis ecianos: Carlos da Maia, João da Ega, Jacintho de Tormes, Fradique Mendes -cultos, elegantes, ricos, irônicos e corrosivos. Eça me dava a alma viva do século XIX, atacando a estupidez endêmica, os sebastianistas de secretaria, os burocratas pulhas, os melancólicos de charutaria, os políticos demagogos, a burrice épica de um Pacheco ou do Conde de Abranhos – que fartura! Era uma sociologia ficcional de nosso destino de fracassados.

Eu amava-o tanto que – acreditem – me postava na porta do colégio na hora da saída, para ver passar um homenzinho da vizinhança ali de Botafogo que era um sósia de Eça. Quem seria? Um bancário, um contador, quem? Tinha o rosto enfezado por um fígado ruim (como o Eça) que lhe franzia a boca num escárnio risonho. Tinha a mesma pastinha de cabelo sobre a testa curta, o olho rútilo, o mesmo bigode, o gogozinho de pássaro, os braços de cegonha, a palidez biliosa. Só lhe faltava o monóculo cravado no olho irônico. Vê-lo passar me encantava como diante de um ressuscitado. Em vez de correr atrás de meninas, eu fazia isso. Pode?

Até hoje, quando vejo a TV Camara ou TV Senado, aquelas ricas jazidas de imbecilidades , vendo as caras, frases e gravatas, eu ainda penso: “será que esses caras aí nunca leram Eça de Queiroz?” Não. Nada. Eles navegam intocados em sua vaidade estúpida, em sua impávida ratonice .

Entre Machado de Assis e Eça de Queiroz sempre preferi o português ao nosso grande mulato. “Ah… porque o Machado é bem mais sutil!…” – diz-se, comparando-se, por exemplo, Capitu à Luiza do “Primo Basílio” (que o próprio Machado, ciumento, acusou de plágio da “Eugenie Grandet”). “Ahhh!… porque o Machado tem mais níveis de significação, mais complexidade psicológica etc e tal…” È verdade. Também acho. O grande Machado atingiu sub-tons que Eça nem tentou, por escolha. Machado é mais inglês; Eça é saído das costelas de Flaubert, Balzac e Zola e funda uma literatura caricatural contra as perdidas ilusões ibéricas, com um riso deslavado, com uma proposital “falta de sutileza” que resulta depois finíssima. Eça cria um realismo quase carnavalizado, sem anseios de transcendência. Machado é mais “nauseado”. Deixa-se envolver por um pessimismo que o claro riso de Eça recusa. É verdade que as personagens de Eça não são tão “livres” quanto em Machado. O “tipo” eciano não tem grande “complexidade”; mas, isso talvez seja o que nossa mediocridade social merece. Ele não cria personagens com uma psicologia sofisticada. Para ele, somos mesmo “tipos”. Como em seu neto Nelson Rodrigues, há nele uma superficialidade “profunda”, muito atual neste tempo em que os valores idealizados caíram no chão. Eça é um escritor político. Ele nos exibe o ridículo das figuras que se consideram nossos “timoneiros” do alto de sua gravidade falsa, com seus interesses mesquinhos no bolso dos jaquetões.

Fonte: A Gazeta

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>Patrulhas ideológicas e patrulhas pop

Posted on novembro 10, 2010. Filed under: Arnaldo Jabor |

>Arnaldo Jabor

Meu filme “A Suprema Felicidade” está sendo aplaudido em cinemas cheios. Pensei: “Oba! O filme é legal; estão gostando!” Uma espectadora me escreveu: “Saí do cinema lotado de pessoas que aplaudiam. Parecia que uma seca tinha acabado. Os que se falavam depois do filme, brindavam com olhos úmidos e a alma encharcada na alegria da dor comum a todos, serenamente revelada”.
Fiquei feliz com o email, mas logo vi que estava errado… Descobri que sou um mero “mané” que se ilude. São outros os que sabem a verdade. Os críticos da “Folha” e da “Vejinha” decretaram que o filme não merece nem uma análise; apenas frases de pichação, breves xingamentos. Eles são taxativos e cruéis como ativos militantes de novas patrulhas “contemporâneas” : ” ele não é mais cineasta” ou “a narração é que estraga…” ou ainda “muitos temas, sem foco” e ainda “acaba de repente”. Só isso?

É. O filme tem criticas ótimas com bonequinho batendo palma no “O Globo” e quatro estrelas no “Estadão”, mas, na minha tremula insegurança, só penso nos quatro que trataram o filme como um objeto descartável, um lixo ridículo. E mais: criticam-me mais que o filme. Por que essa raiva? Por quê? Será que eles estão certos? Será que as 180 mil pessoas que já assistiram ao filme em 13 dias, e que fazem a renda crescer no cinema com um boca-a-boca fervoroso , são um bando de idiotas?
Resolvi entender isso. Pensei, pensei, não só pela vaidade ferida, claro, mas também para denunciar a estupidez de cadernos culturais que viraram meros “releases” de produtos de massa. Cresce no país uma cultura da incultura, a profundidade do superficial, a rapidez do julgamento, num mundo feito de fugazes emails, celulares tocando, filmes com imagens que não podem ter mais de 4 segundos, porrada, corrida, sem saída, até sem “roteiro”, essa coisa antiga do tempo em que os homens (e não robôs e “transformers”) se relacionavam.
Está fora de moda um filme para ser visto, refletido, com choro, risos, vida… Cinema agora é para manipular os espectadores, que são o videogame da industria. O desejo dos produtores é justamente apagar o drama humano dentro de nossas cabeças. A ação na tela é incessante, o conflito é permanente, de modo a impedir o espectador de ver seus conflitos internos.
Acontece, patrulheiros pop , que “A Suprema Felicidade” foi feito justamente contra esta tendência quero que os espectadores se sintam dentro do filme e não que sejam levados por porradas, som “dolby” e homens explodindo.
Eu sei que vocês foram modificados genèticamente por décadas de videoclipes, eu compreendo que vocês achem o Michel Gondry o novo Goddard e que o “flashback” foi inventado pelo Tarantino. Imagino vosso tremor na hora da entrevista de emprego, com o diretor do jornal perguntando: “Conhece literatura, política, antropologia?” “Não, senhor…” “OK…Secretario, bota ele na critica de cinema…”

Há em vocês uma esperteza ambiciosa por trás de tanta brevidade implacável – é duro passar a vida botando bolinha preta no “Piranha”. O cara precisa criar eventos que o promovam.

Eis que, de repente, aquele sujeito que fala na TV, escreve em 20 jornais, fala no radio há 15 anos, resolveu fazer seu nono filme.

Vocês gritam: “Vamos quebrar a espinha dele!”

Compreendo que isso dá prestigio; é um “upgrading”. O sujeito entra na redação de testa alta e lábio tremulo: “Esculachei a besta do Jabor..!” E é olhado com cálida admiração.

Ato de violência

Aí, percebi que não apenas a patrulha pop pautou seus críticos.

Lembrei da devastadora critica de Eduardo Escorel na revista “piauí” (não confundir com Lauro Escorel , o grande artista que fotografou o filme). Lembro mesmo que corri à “piauí” com a esperança de aprender teoria com o velho autor de remotos filmes como a historia sinistra de um esquartejador e a adaptação dialética do “Cavalinho Azul” de Maria Clara Machado. Dele eu esperava opiniões cultas, conspícuas frases sobre Bergman, Fellini. Eu esperava encontrar André Bazin e dei de cara com Andrei Zhdanov, o supremo censor de Joseph Stalin (olhem no Google, meninos…)

Mas, mesmo assim, esquartejado, tentei entendê-lo. E tive a revelação, vi a luz!

Eduardo tinha uma missão política, senhores, iluminista mesmo: ele quis salvar o publico das mensagens reacionárias que devo ter embutido no filme. Por isso, ele correu a Alfaville, para ver o filme quentinho, ainda no laboratório. Ele correu antes para avisar o povo: “Não vá!…Fuja do demônio neoliberal que fez um filme de época sem mostrar Getulio ou a luta de classes.”

Ele deve ter zelosamente pensado: “Vou pautar também os jovens tenentes das novas “patrulhas pop” , porque eu sou egresso das velhas patrulhas ideológicas descobertas por Cacá Diegues e tenho esta missão “.

E conseguiu; parabéns, doce Zhdanov com seu lento sorriso superior. Foi um alivio. A sociedade estava salva.

Mesmo assim eu ainda entendo o homem. Sei que grandes frustrações na vida se compensam por elusivas fantasias de grandeza. Sei que a onipotência não realizada, o narcisismo que parou no meio provocam ódio e entendo que ele tenha buscado ,digamos, “profissionalizar” seu rancor. Assim ele descolou esse “bico” para aliviar sua dor interna. Deve ter pensado: “Boa idéia…serei implacável contra todos que ousam fazer filmes corrompidos pelo sucesso e pelo publico enganado.”

Confesso que admiro sua integridade de não poupar nem amigos nem parentes.

Mas, ai…esbarrei com a frase: “Jabor sempre pareceu mais um “diletante” que um cineasta profissional”. Aí, não. Depois de ter trabalhado 30 anos em cinema, fazendo 9 filmes, ouvir isso não dá. “Diletante” é você, cara, que fez dois ou três filmes medíocres que sumiram da historia de nosso cinema.

E, no final, outro insulto, quando ele diz que vendo esse filme, ele não tem mais duvidas de quem sou eu..
Respondo: Se você pudesse saber quem eu sou, você não seria o que é.
E mais, ridículo censor do trabalho alheio: “a dignidade severa é o ultimo refugio dos fracassados”. É´ só. 

Fonte: A Gazeta

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>Eu nasci dentro de uma camera

Posted on outubro 27, 2010. Filed under: A Suprema Felicidade, Arnaldo Jabor, cinema, Cinema Novo, filmes, líder |

>

Por Arnaldo Jabor
Eu era cineasta e virei jornalista. Fiz nove filmes e parei, há dezessete anos. Continuo jornalista, que adoro como profissão mas, de três anos para cá, resolvi filmar de novo. Alguns artigos que escrevi sobre meu passado juvenil foram a base do argumento: meu pai, meu avô, minha mãe, as primeiras buscas de amor e sexo, o Rio da bossa nova que nascia, da copa de 58, o Rio que na época era um paraíso de liberdade, até a chegada do golpe de 64. Um ano escrevendo, um ano atrás do dinheiro com meu sócio Francisco Ramalho Jr, um ano e meio para filmar, montar e agora exibir.
Cartaz do filme A Suprema Felicidade, de Arnaldo Jabor
Fiquei besta como tudo mudou. O cinema no Brasil está um show tecnológico. Antes, as condições eram terríveis, as equipes despreparadas, a fome rondava o espetáculo e variávamos entre dois sentimentos básicos: ansiedade e frustração “será que vai sair o dinheiro?” ou “os exibidores acham que o filme é um “abacaxi”.
Em 1943, meu pai foi aos Estados Unidos e comprou uma maquina de filmar, de 8 mm Kodak.
Guardo essa câmera até hoje, fico olhando o buraco da objetiva e penso que ali, naquela lente, passou minha vida inteira. Meu pai fez um verdadeiro longa-metragem de nossa familia, entre 43 e 62. Minhas primeiras imagens são de fraldas e as ultimas mostram-me com 20 anos, recebendo a espada de aspirante a oficial da reserva, perfilado no quartel do Exercito- mais de três horas de minha infância profunda em tremulas imagens riscadas. Este filme “A Suprema Felicidade” é uma volta ao passado, onde devolvo minha vida a meus pais e ao Rio que me viu crescer. Esta pequena câmera aparece no inicio do filme, nas mãos de Mariana Lima. Entrei nesta câmera e virei cineasta.
Quando comecei a filmar, em 65, as câmeras eram pobres, nossos filmes, preto-e-branco, nosso som, precário e, no entanto, a fome de mostrar o olho do boi morto, o mandacaru pobre, as mãos brutas dos camponeses, a cara boçal da classe média, fazia-nos desprezar até o aperfeiçoamento técnico, numa espécie de mímica do cotidiano proletário. Racionalizávamos nossa miséria em teoria, numa espécie de arte povera: a precariedade seria mais profunda que um “reacionário” progresso audiovisual.
Estava surgindo o Cinema Novo que, alias, nasceu num botequim.
Isso mesmo. Lá no bar do laboratório Líder, em Botafogo, foram sonhados dezenas de filmes. Hoje o bar já virou uma “acrílica” lanchonete. Mas, desse tempo mágico, ficaram as lembranças: as moscas no bico dos açucareiros, os chopes, os sanduíches de pernil, os ovos cozidos cor-de-rosa, a lingüiça frita, o cafezinho em pé. E era ali, no meio de insignificantes objetos brasileiros, era ali que traçávamos os planos para conquistar o mundo. Conspirávamos contra o “campo e contracampo”, contra os travellings desnecessários, contra o happy end, contra a fórmula narrativa do cinema americano e acreditávamos que éramos parte da salvação política do país – nossa câmera era um fuzil que, em vez de mandar balas, recolhia imagens do país para “libertar” os espectadores.
E nisto havia até uma ingênua verdade, pois o cinema moderno perdeu a magia crítica de antes, porque, quanto mais se aperfeiçoam as maneiras de devassar a “realidade”, mais distante ela fica.
Hoje, são infinitas as imagens que invadem nossas mentes e olhos. O vídeoclip, a metralhadora da publicidade, a velocidade do ritmo criaram um excesso de informações que se anulam. Tanta é a exposição da realidade do mundo, que não vemos nada. Quanto mais se fazem descobertas, mais fundo é o túnel do mistério; a máquina do mundo, quanto mais aberta mais fica vazia. O desejo dos produtores (de Hollywood, principalmente) é justamente apagar o drama humano dentro de nossas cabeças. A ação na tela é incessante, de modo a nos paralisar na vida; o conflito é permanente, de modo a impedir o espectador de ver seus conflitos internos. O Brasil está tonto, perdido entre tecnologias novas cercadas de miséria e estupidez por todos os lados. Temos uma imensa e riquíssima quantidade de formas técnicas e quase nenhum conteúdo. Antes, tínhamos fins, mas não tínhamos meios. Hoje, temos todos os meios, sem um fim claro. A tecnologia nos enfiou uma lógica produtiva de fábricas, fábricas vivas. Somos carros, somos celulares, somos circuitos sem pausa. Assistimos às chacinas diarias entre chips e websites.
Por isso, tentei fazer um filme que seja visto sem a pressa angustiada do rococó eletrônico que nos assola. Já que a vida está tão fragmentada do lado de fora dos cinemas, tenho a esperança de que uma vida mais clara apareça na sala escura.
Minha “suprema felicidade” é que o filme parece que tocou em emoções que ficaram impalpáveis nos últimos anos, pois quem muda não são apenas as produções, mas a cabeça dos espectadores. Ficamos desacostumados de cenas puras, sem manipulações e efeitos, que subtraem do público a liberdade de observar as ações das personagens, esquecemos que as ações humanas vão muito alem das corridas vertiginosas de carros ou de metralhas arrebentando corpos, esquecemos de uma dramaturgia que exponha ações complexas do drama humano.
Meu Deus, que saudade do cinema classico! Que saudade do sonho, da utopia filmica dos anos 50 e 60, alimentada pelo “Cahiers du Cinema” e pelos circulos de fumaça dos “Gitanes” sem filtro. Hoje o cinema é nu. Esta exposto nas lojas, feiras e bancas de jornais , está nos hotéis, na ponta dos dedos dos insones, está rodando bolsinha nas ruas.
Tenho saudades da sala escura, do cinema segredo, o cinema tesouro , o cinema dos pobres tímidos, o cinema como uma ilusão que nos levava ao êxtase (“ia-se ao cinema como ao bordel em busca de ilusões” (cf. Paulo Emilio Salles Gomes) , o cinema como realidade alternativa, que analisávamos noite a dentro nos bares. Ahh… como era bom esperar um filme do Fellini, a cada ano…Quando vem o novo Antonioni, o novo Bergman?
Mal me comparando a esses grandes homens, estréia no Brasil, dia 29, um “novo Jabor”.
Não me percam…num cinema perto de vocês. 
Fonte: A Gazeta
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>A difícil missão de Dilma Rousseff

Posted on outubro 20, 2010. Filed under: Arnaldo Jabor, candidata, Dilma Rousseff, Marqueteiros, Missão, presidente da República |

>Por Arnaldo Jabor

“Dilma faz isso, Dilma faz aquilo… Dilma, corta o cabelo! Dilma se maquia mais rosadinha! Dilma você está sem emoção, tem de passar mais verdade… Dilma, seu sorriso não está sincero…Dilma isso, Dilma aquilo…”
(Coitada da pobre senhora que, canhestramente, segue as ordens do patrão e dos petistas que a usam para ficar eternamente em seus buraquinhos ou para realizar o que seria a torta caricatura de um vago socialismo, que não passa de uma reles aliança com a banda podre do PMDB)
Dilma Rousseff candidata a presidente da República
“Dilma não fale nada de novo sobre aborto que você já deu uma entrevista na TV e agora não adianta desmentir. Dilma ajoelha, isso, sei que está cansada, mas ajoelha e faz cara de religiosa devota de Nossa Senhora Aparecida; Dilma, eu sei que você é ateia, que para você a religião é o ópio do povo, mas, dane-se, ajoelha e reza, mas não fica com a cara muito em êxtase feito uma madre Tereza de Calcutá não, que eles desconfiam. Dilma levanta e vai confessar e comungar, mas não conte tudo ao padre não, porque esses padres de hoje não são confiáveis e podem fazer panfletos. Dilma isso, Dilma aquilo!…Sei que foi duro para você, bichinha, ser preterida pela Marina, tão magrinha, um top model do seringal , sabemos de tudo que você tem sofrido, mas você é uma revolucionaria e tem de agüentar as intempéries para garantir os empregos de tantos militantes que invadiram esse Estado burguês para “revolucionar” por dentro.Viu, Dilma? Feito ensinou aquele cara italiano que os comunas vivem falando, o tal de Gramsci…só que nosso Gramsci é o Dirceu….ah ah… Você tem de esquentar minha cadeira ate 2014, pois você acha que vou ficar de pijama em S. Bernardo ?”
Aí, chegam os marqueteiros, escondendo sua depressão, pois o segundo turno não estava em seus planos de tomada do poder:
“Dilma, companheira, esculacha bem o FHC e o Serra , pois você pode inventar os números que quiser, porque ninguém confere. Diz aí que nós tiramos 28 milhões de brasileiros da miséria! Claro que é mentira, pô, mas diz e esconde que foi o governo do FHC que inventou o Bolsa Família e negue com todas as forças se disserem que o Plano Real tirou 30 milhões da faixa de pobreza, quando acabou com a inflação. Esqueça no fundo de tua mente que a inflação só ameaçou o Plano Real quando Lula barbudo ia vencer…Mas, quando o Duda escreveu a cartinha do Lulinha “paz e amor”, a inflação voltou ao normal.
Dilma, você tem de negar em todos os debates que o PT tentou impedir o Plano Real no STF, assim como não assinou a Constituição de 88 para não compactuar com o “Estado burguês”; todos têm de esquecer que fomos contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, que demos força a todos os ladrões que pudemos para manter as alianças para nosso poder eterno, pois as ordens do companheiro Dirceu ( “sim, doutor Dirceu, como está? Estamos ensinando aqui à dona Dilma suas recomendações…”) eram: atacar tudo do governo FHC, mesmo as coisas inegavelmente boas. Dilma, afirme com fé e indignação que as “privatizações roubaram o patrimônio do povo”, mesmo sabendo que a Vale, por exemplo, quando foi privatizada em 97 valia 8 bilhões de reais e que hoje vale 273 bilhões, que seu lucro era de 756 milhões e que agora é de 10 bilhões, que seus empregados eram 11 mil e que agora emprega 40 000. Mesmo sabendo que
a Embraer entregava 4 jatos em 97 e que agora entrega 227, que a telefonia não existia na Telebrás e que agora quase todos os brasileiros têm celular. Não podemos divulgar, mas a telefonia privatizada aumentou o numero de telefones em 2500 por cento…Isso. Mas, não diga nada..Pode citar numero quanto quiser que ninguém confere…diga que os municípios tem saneamento básico, quando
metade deles não tem esgoto nem água tratada, depois de nossos oito anos no poder…Pode dizer o que quiser. Viu o belo exemplo do Gabrielli, que ousou dizer que o FHC queria que a Petrobras morresse de inanição e que o Zylberstajn era a favor da privatização do pré-sal”? Ninguém contesta, mesmo sendo publicado o que FHC escreveu na época, dizendo que “nunca privatizaria a Petrobras.”. Diga sempre que a culpa é das “elite”, que o povão do Bolsa acredita… Dilma, faz isso, faz aquilo…Dilma sobe no palanque, desce do palanque…”
(Eu acho que Dilma é uma vitima. Uma “tarefeira” do narcisismo de Lula. Agora que Dilma não tem mais certeza de que vai vencer, seu semblante é repassado por uma vaga inquietude. Gente autoritária odeia duvidas, porque a duvida não é “de esquerda”; a duvida é coisa de pequenos burgueses – como dizia Marx: “pequeno burguês é a contradição encarnada”. Lula também odeia duvidas…Ele fica retumbante quando vitorioso, mas sua cara muda com fracassos. Lembram do seu pior momento, quando explodiu o mensalão?
Agora Lula está deprimido de novo, o PMDB está angustiado, querendo trair, como mostra a cara do candidato a vice presidente, o mordomo inglês de filme de terror…Lula teme a derrota, como se caísse de volta na linha de pobreza que ele diz que interrompeu. Talvez no fundo, Dilma tema a própria vitoria, porque terá de agüentar o PMDB exigindo coisas, Força Sindical, CUT, ladrões absolvidos, renunciados, cassados, novos corruptos no poder, novas Erenices, terá de receber ordens do comissário do povo Dirceu, terá de beijar e gostar do Sarney, Renan, Collor, seus aliados. Vai ter de beijar com delicia o Armadinejad, o beiçudo leão de chácara Chávez, o cocaleiro Evo , com o MST enfiando bonés em sua cabeça, vai ter de aturar as roubalheiras revolucionarias dos fundos de pensão que já mandaram para o Exterior bilhões em contas secretas..
Coitada da Dilma – sendo empurrada com a resignação militante, para cumprir ordens, tarefas, como os militantes rasos que pichavam muros ou distribuíam panfletos.
Dilma às vezes dá a impressão de que não quer governar…Ela quer sossego, mas não deixam…

Como é que fazem isso com uma senhora?

Fonte: A Gazeta

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>O subito encanto de Marina Silva

Posted on outubro 6, 2010. Filed under: Arnaldo Jabor, encanto, Marina Silva, Marketing, Receita Federal, segundo turno, Sorriso, subito, UNE |

>Por  Arnaldo Jabor
Não, o Palácio de Inverno de S.Petersburgo da Rússia em 1917 ainda não será tomado pela onda vermelha.

Não. Agora, o PT vai ter de encarar: estamos num país democrático, cultural e empresarialmente complexo, em que os golpes de marketing, os palanques de mentiras, os ataques violentos a imprensa não bastam para vencer eleições…(por decência, não posso mostrar aqui os emails de xingamentos e ameaças que recebo por criticar o governo). O Lula vai ter de descobrir que até mesmo seu populismo terá de se modernizar. O povo está muito mais informado, mais on line, mais alem dos pobres homens do Bolsa Família, e não bastam charminhos e carismas fáceis, nem paz e amor nem punhos indignados para a população votar. Já sabemos que enquanto não desatracarmos os corpos públicos e privados, que enquanto não acabarem as regras políticas vigentes, nada vai se resolver. Já sabemos que mais de 5 bilhões por ano são pilhados das escolas, hospitais, estradas e nenhum carisma esconde isso para sempre. Já sabemos que administração é mais importante que utopias.
A campanha a que assistimos foi uma campanha de bonecos de si mesmos, em que cada gesto, cada palavra era vetada ou liberada pelos donos da “verdade” midiática. Ninguém acreditava nos sentimentos expressos pelos candidatos. Fernando Barros e Silva disse na “Folha” uma frase boa: “Dilma parece uma personagem de ficção e Serra a ficção de uma personagem.” Na mosca.


SERRA

Os erros da campanha do Serra foram inúmeros: a adesão falsa ao Lula, que acabou rindo dele : “o Serra finge que me ama”…

Serra errou muito por auto-suficiência (seu defeito principal) demorando muito para se declarar candidato, deixando todo mundo carente e zonzo, como num coito interrompido; Serra demorou para escolher um vice presidente, (com a gafe de dizer que vice bom é o que não aporrinha), fez acusações ligando as Farc à Dilma, esculachou o governo da Bolívia ainda no inicio, avisou que pode mexer no Banco Central e, quando sentiu que não estava agradando fez anúncios populistas tardios sobre salário mínimo e aposentados. Nunca vi uma campanha tão desagregada, uma campanha antiga, analógica numa época digital, enlouquecendo cabos eleitorais e amigos , todos de bocas abertas , escancaradas, diante do obvio que Serra ignorou. Serra não mudou um milímetro os erros de sua campanha de 2002. Como os Bourbon “não esqueceu nada e não aprendeu nada.

A campanha do primeiro turno resumiu-se a dois narcisismos em luta.

DILMA

Enquanto o Serra surfava em sua auto-confiança suicida, a Dilma, fabricada dos pés ao cabelo, desfilava na certeza de sua vitoria, abençoada pelo “Padim Ciço” Lula.
Seus erros foram difíceis de catalogar racionalmente, mas os eleitores perceberam sutilezas na má interpretação da personagem, como atrizes ruins em filmes.

O sorriso sem animo, riso esforçado, a busca de uma simpatia que escondesse o nítido temperamento autoritário, suas palavras sem a chama da convicção, ocultando uma outra Dilma que não sabemos quem é, sua postura de vencedora, falando em púlpitos para jornalistas, sua arrogância que só o salto alto permite: ser pelo aborto e depois desmentir, sua união de atéia com evangélicos, a voracidade de militante tarefeira, para quem tudo vale a pena contra os “burgueses de direita” que são os adversários, os esqueletos da Casa Civil, desde os dossiês contra FHC, passando pela Receita Federal (com Lina Vieira e depois com os invasores de sigilos), sua tentativa de ocultar o grande hipopótamo do Planalto que foi seu braço direito e resolveu montar uma quadrilha familiar. Alem disso, os jovens contemporâneos, mesmo aqueles cooptados pelo maniqueísmo lulista, não conseguem votar naquela ostentada simpatia, pois vêem com clareza uma careta querendo ser “cool”.


MARINA
Os erros dos dois favoritos acabaram sendo o grande impulso para Marina. No meio de uma programação mecânica de marketing, apareceu um ser vivo: Marina. Isso.

Uma das razoes para o segundo turno foi a verdade da verde Marina. Sua voz calma, sua expressão sincera, o visível amor que ela tem pelo povo da floresta e da cidade tudo isso desconstruiu a imagem de uma candidata fabricada e de um candidato aferrado em certezas de um frio marqueteiro.

Marina tem origem semelhante a do Lula, mas não perdeu a doçura e a fé de vencer pelo bem. Isso passa nas imperceptíveis expressões e gestos, que o publico capta.
Agora teremos um segundo turno e talvez vejamos um PSDB fortalecido pela súbita e inesperada virada. Desta vez, o partido terá ser oposição, se defendendo e não desagregado como foi no primeiro turno, onde se esconderam todos os grandes feitos do próprio PSDB, durante o governo de FHC.

Desde 2002, convencionou-se (quem? Por quê?) que o Lula não podia ser atacado e que o FHC não poderia ser mencionado. Diante desta atitude, vimos o Lula, sua clone e seus militantes se apropriarem descaradamente de todas as reformas essenciais que o governo anterior fez e que possibilitaram o sucesso econômico do governo Lula, que cantou de galo até no Financial Times, assumindo a estabilização de nossa economia. E os gringos desinformados, acreditam.

Alem disso, com “medinho” de desagradar os “bolsistas da família”, ninguém podia expor mentiras e falsos dados que os petistas exibiam gostosamente, com o descaro de revolucionários “puros”. Na minha opinião, só chegamos ao segundo turno por conta dos deuses da Sorte. Isso – foi sorte para o Serra e azar para a Dilma.

Ou melhor duas sortes:
O grande estrago causado pela súbita riqueza da filharada de Erenice, ali, tudo exibido na cara do povo, e o reconhecimento popular do encanto sincero de Marina.

Isso salvou a campanha errática e auto suficiente do Jose Serra, que apesar de ser um homem serio, competentíssimo, patriota, que conheço e respeito desde a UNE, mas que é das pessoas mais teimosas do mundo.

Duas mulheres pariram o segundo turno. Se ouvir seus pares e amigos, poderá ser o próximo presidente. Se não…

Fonte: A Gazeta

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>As boquinhas fechadas

Posted on setembro 29, 2010. Filed under: agências reguladoras, Arnaldo Jabor, Banco Central, direita, esquerda, FHC, Florestan Fernandes, Gramsci., intelectuais, Lula, Marx, privatização, Sergio Buarque, Tocqueville, trair |

>Por Arnaldo Jabor
Estamos vivendo um momento grave de nossa historia política em que aparecem dois tumores gêmeos de nossa doença: a união da direita do atraso com a esquerda do atraso

O Brasil está entregue à manipulação pelo governo das denuncias, provas cabais, evidencia solares, tudo diante dos olhos impotentes da opinião publica, tapando a verdade de qualquer jeito para uma espécie de “tomada do poder”. Isso; porque não se trata de um nome por outro a idéia é mudar o Estado por dentro.

Tudo bem: muitos intelectuais têm todo o direito de acreditar nisso. Podem votar em quem quiserem. Democracia é assim.

Mas, e os intelectuais que discordam e estão calados? Muitos que sempre idealizaram o PT e se decepcionaram estão quietinhos com vergonha de falar. Há o medo de serem chamados de reacionários ou caretas.

Há também a inércia dos “latifúndios intelectuais”. Muitos acadêmicos se agarram em feudos teóricos e não ousam mudá-los. Uns são benjaminianos, outros hegelianos, mestres que justificam seus salários e status e, por isso, não podem “esquecer um pouco do que escreveram” para agir. Mudar é trair…Tambem não há coragem de admitirem o obvio: o socialismo real fracassou. Seria uma heresia, seriam chamados de “revisionistas”, como se tocassem na virgindade de Nossa Senhora.

O mito da revolução sagrada é muito grande entre nós, junto com o voluntarismo e o populismo antidemocrático. E não abrem mão de utopias – o presente é chato, preferem o futuro imaginário. Diante de Lula, o símbolo do “povo que subiu na vida”, eles capitulam. Fácil era esculhambar FHC. Mas, como espinafrar um ex-operário? É tabu. Tragicamente, nossos pobres são fracos, doentes, ignorantes e não são a força da natureza, como eles acham. Precisam de ajuda, educação, crescimento para empregos, para alem do Bolsa Familia. Quem tem peito de admitir isso? È certo que já houve um manifesto de homens sérios outro dia; mas faltam muitos que sabem (mas não dizem) que reformas politicas e econômicas seriam muito mais progressistas que velhas idéias generalistas, sobre o “todo, a luta de classes, a Historia”. Mas, eles não abrem mão dessa elegância ridícula e antiga. Não conseguem substituir um discurso épico por um mais realista. Preferem a paz de suas apostilas encardidas.

Não conseguem pensar em Weber em vez de Marx, em Sergio Buarque em vez de Florestan Fernandes, em Tocqueville em vez de Gramsci.

A explicação desta afasia e desta fixação num marxismo-leninismo tardio é muito bem analisada em dois livros recentemente publicados: “Passado Imperfeito”, do Toni Judt (que acaba de morrer) e o livro de Jorge Caldeira “Historia do Brasil com empreendedores” (Editoras Cia da Letras e Mameluco). Ali, vemos como a base de uma ideologia que persiste ate hoje vem de ecos do “Front Populaire” da Franca nos anos 30, pautando as idéias de Caio Prado Jr e deflagrando o marxismo obrigatório na Europa de 45 até 56. Os dois livros dialogam e mostram como persiste entre nós este sarapatel de teses: leninismo, getulismo desenvolvimentista- e agora, possível “chavismo cordial”.

A agenda obvia para melhorar o Brasil é consenso entre grandes cientistas sociais. Vários “prêmios Nobel” concordam com os pontos essenciais das reformas políticas e econômicas que fariam o Brasil decolar.

Mas, não; se o PT prevalecer com seu programa não-declarado (o aparente engana…) não teremos nada do que a cultura moderna preconiza.

O que vai acontecer com esse populismo-voluntarista-estatizante é previsível , é “be-a-bá” em ciencia politica. O PT, que usou os bons resultados da economia do governo FHC para fingir que governou, ousa dizer que “estabilizou” a economia, quando o PT tudo fez para acabar com o Real, com a Lei de Responsabilidade Fiscal, contra tudo que agora apregoa como atos “seus”. Fingem de democratas para apodrecer a democracia por dentro.

Lula topa tudo para eleger seu clone que guardará a cadeira até 2014. Se eleito, as chamadas “forças populares”, que ocupam mais de 100 mil postos no Estado aparelhado, vão permanecer nas “boquinhas”, através de providencias burocráticas de legitimação.

Os sinais estão claros.

As Agencias Reguladoras serão assassinadas.

O Banco Central poderá perder a mínima autonomia se dirigentes petistas (que já rosnam) conseguirem anular Antonio Palocci, um dos poucos homens cultos e sensatos do partido.

Qualquer privatização essencial, como a do IRB, por exemplo, ou dos Correios (a gruta da eterna depravação) , será esquecida.

A reforma da Previdência “não é necessária” já dizem eles – pois os “neoliberais exageram muito sobre sua crise”, não havendo nenhum “rombo” no orçamento.

A Lei de Responsabilidade Fiscal será desmoralizada.

Os gastos públicos aumentarão pois, como afirmam, “as despesas de custeio não diminuirão para não prejudicar o funcionamento da máquina publica”.

Portanto, nossa maior doença o Estado canceroso será ignorada.

Voltará a obsessão do “Contrôle” sobre a midia e a cultura, como já anunciam, nos obrigando a uma profecia auto-realizável.

Leis “chatas” serão ignoradas, como Lula já fez com seus desmandos de cabo eleitoral da Dilma ou com a Lei que proíbe reforma agrária em terras invadidas ilegalmente, “esquecendo-a” de propósito.

Lula sempre se disse “igual” a nós ou ao “povo”, mas sempre do alto de uma “superioridade” mágica , como se ele estivesse “fora da política”, como se a origem e a ignorância lhe concedessem uma sabedoria maior. Em um debate com Alckmin (lembram?), quando o tucano perguntou a Lula ao vivo de onde vinha o dinheiro dos aloprados, ouviu-se um “ohhhh!….” escandalizado entre eleitores, como se fosse um sacrilégio contra a santidade do operário “puro”.

Vou guardar este artigo como um registro em cartorio. Não é uma profecia; é o óbvio. Um dia, tirá-lo-ei do bolso e sofrerei a torta vingança de declarar: “Agora não adianta chorar sobre o chopinho derramado!”…

Fonte: A Gazeta

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