avô materno

>Morte matada ou morte morrida?

Posted on outubro 3, 2009. Filed under: avô materno, catastrófica, deprimente, dramática, morte |

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Eu tive um avô materno muito bem-humorado e era comum, quando alguém anunciasse alguma morte, ele perguntar: “morreu de morte matada ou de morte morrida?” Era uma expressão popular e o tom jocoso fazia com que a notícia sobre a “indesejável” ficasse mais leve. Hoje percebo a importância de ter tido uma família que falava sobre a morte abertamente e com certezas. Criança precisa de “verdades” – isso que venho falar neste texto. Creio que a morte assusta porque homens e mulheres têm medo da finitude e consequentemente se sentem impotentes por não conseguir tornar a vida infinita e que, no caso da falta de informação, esse medo resulta em uma falta de conviver como que é certo e imutável. Já adultos (quase todos, adultos) teimam em lidar com suas angústias em relação à morte. Isso nos parece preocupante, pois uma pessoa pode alterar diferentes situações de sua vida, seja ela: financeira, física, emocional ou espiritual, mas a morte… A morte é a única situação que não temos como evitar em nossas vidas, um dia ela acontecerá fatalmente. Portanto, não falar sobre o assunto, ou seja, “proteger” a criança, poderá dificultar o seu entendimento sobre o ciclo da vida.

Logicamente que não proponho uma conversa planejada de maneira dramática, catastrófica e deprimente, acredito sim que a morte deve ser tratada espontaneamente, cotidianamente e de uma maneira até humorada. Mas o que acontece, por exemplo, é o uso dos “…eufemismos que ajudam a disfarçá-la… dentro do contexto hospitalar, o paciente não morre: expira, se perde na mesa, vai a óbito, é paciente com síndrome de JEC (Jesus está chamando)” (Maranhão, 1987, p.11).Pior é “fazer da morte e do morrer um tabu (pois) ao afastar as crianças das pessoas que estão morrendo ou já morreram, estamos incutindo nelas um medo desnecessário” (Kübler-Ross, 1975, p.31). Destaco, porém, que isso não significa que a criança deva ser levada, ou seja, obrigada, como acontece em muitos velórios a ver e beijar um defunto para obedecer e agradar um adulto, sem desejá-lo. Pior ainda é negar às crianças certas informações e curiosidades, certos porquês (são) omitidos e apagados. Uma certa ordem “natural”, nas coisas, nos seres, nas ações dos homens, aparece, então, quase que como resultante de um acordo entre atores: “Eu faço de conta que isto não me interessa e você faz de conta que isto não lhe interessa. Deste modo, problemas existenciais fundamentais como a vida e a morte não são discutidos”. Numa sociedade em que o acesso à informação está cada vez mais facilitado, “as crianças, desde cedo, têm noções do processo de reprodução, portanto (…) quando sentem a falta de alguém que morreu logo tal ausência é justificada por uma viagem longa para um lugar maravilhoso”, essa postura acaba sendo um contra-senso. Não podemos evitar o contato da criança com os problemas existenciais. Nesse sentido Bettelheim (1980, p.14-15), defende: “(…) que lhe sejam dadas sugestões em forma simbólica sobre como ela pode lidar com estas questões e crescer a salvo para a maturidade. As estórias “fora de perigo” não mencionam nem a morte nem o envelhecimento (…)”. E essa ausência pode comprometer emocionalmente a criança, visto que o “encontro” com temas que lhes causam medo, é a primeira etapa para vencê-lo. Sendo a morte encarada de maneira igual ou diferente pelas pessoas e pelas culturas, é necessário que se tenha em mente, que há tantas espécies de vida, tantas possibilidades de morte… (portanto) é fundamental discutir com a criança, de modo verdadeiro, honesto, aberto, como isso acontece e como poderia não acontecer… Compreender a morte como um fechamento natural dum ciclo, que não exclui dor, sofrimento, saudade, sentimento de perda (Abramovich, 1989, p.113).Em especial, porque “a morte pertence à própria estrutura essencial da existência (…)”. Assim que um homem começa a viver, tem idade suficiente para morrer. Não caímos de repente na morte, porém caminhamos para ela passo a passo: morremos cada dia” (Heidegger apud Maranhão, 1987, p.69). Preparar as crianças para lidar com a morte não significa ficar o tempo todo falando sobre o assunto. Devemos falar de tudo com as crianças, porém com bom senso e sem exageros. Finalizando: não esgotamos o assunto, pelo contrário tivemos a pretensão de que esse texto seja o estímulo para outras reflexões e investigações.

Autora: Graciele Girardello é neuropsicóloga – Fonte: A Gazeta. E-mail: g.girardello@terra.com.br

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