Besouro

>"Besouro" e outros bichos

Posted on outubro 28, 2009. Filed under: Besouro, Cinema Novo, filme épico, Hollywood |

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  • Arnaldo Jabor

Este filme “Besouro” de João Daniel Tikhomiroff surge num momento de “passagem” do cinema brasileiro. Vivemos divididos entre um cinema de autor e um cinema de mercado, entre um cinema que queremos fazer e um cinema que deveríamos fazer. Com a vitória do mercado como deus único, o desejo de significar alguma coisa de importante para o cinema ou para a cultura virou quase um desvio da norma.

Há alguns anos, começaram a vir para cá famosos “script-doctors”. Syd Field era um deles; as regras de ouro de Hollywood passaram a ser ensinadas aos diretores do país, como axiomas, dogmas a serem cumpridos sob pena do fracasso. Leis brancas para filmes mestiços, leis de senhores para serem obedecidas: o mocinho, o bandido, o bem, o mal, a redenção final obrigatória. Sumiram os resquícios de zelo dos produtores dos anos de ouro; tudo ficou muito frio, muito bruto.

Há pouco tempo, um executivo declarou que não é mais necessário que o autor tenha amor ao cinema; ao contrario, isso ate atrapalharia. Quem filma agora são os produtores.

No filme “Besouro” há alguma coisa parecida com filmes da década de 60, do surgimento do Cinema Novo o cinema livre dos estúdios, dos arcos voltaicos, o cinema ao sol, ao vento, ao sal, a câmera denunciando injustiças como uma arma, a impaciência com o cinema psicológico, a pele nua contra o figurino, a câmera voadora, movente como um “besouro.” Apesar do som Dolby, da “féerie” tecnológica, lembrei por instantes de filmes como “Barravento” (também na Bahia) ou “A Grande Feira” ou “Ganga Zumba”.

A ação se passa em Santo Amaro da Purificação, município do Recôncavo onde nasceu a lenda do capoeirista, no começo da década de 1920.

Ali, a comunidade de negros tenta se livrar do passado recente – pouco mais de 20 anos desde a abolição da escravidão – e em muitos lugares o trabalho assalariado dos negros e a discriminação permanente não era muito diferente do regime escravista.

“Besouro” surge em meio a outros filmes brasileiros, a outros bichos que voam mais baixo, buscando o sucesso comercial tecnicamente programado em computador o espectador manipulado como num vídeo game.

Assim como o cinema de estúdio americano era filho do teatro, o Cinema Novo era filho do documentário. “Besouro” sai desta mesma toca, do desejo de entender o país um pouco mais e da vontade de romper com a linguagem obrigatória do cinema programado. Depois de décadas de publicidade, acho que João Daniel queria ar, voar. “Besouro” é um filme de ruptura com as regras obrigatórias e também com a própria experiência em propaganda. (Eu já fiz muitos “comerciais” – vivi disso 15 anos -e sei como é; dá vontade de explodir os gabinetes e clientes escrotos; eu fiz um filme em que o cliente nos obrigou a apagar a favela da Rocinha ao fundo dos prédios em lançamento…)

“Besouro” tem uma idéia na cabeça: mostrar a dificuldade de individuação dos homens pobres (mais que negros) através de uma cultura que não chegou pelas caravelas, mas nos navios-negreiros. Assim, mostra que o escravismo não cessou com a abolição e também que o racismo vai mais alem da pele -se estende a tudo que é “diferente”. A fortaleza cultural dos pobres inquieta os capatazes da cultura oficial.

Momentos que podem parecer desvios de narrativa denotam o desejo de partir para a “fabula”. Só a fabula dá conta de situações alem da pura psicologia realista, só a fabula pula por cima do principio, meio, fim e do “happy end” simplista.

Recentemente, foram feitos filmes (bons) sobre a miséria, a injustiça social, mas faltavam trabalhos sobre as ameaças à cultura. Existe no Brasil uma grave injustiça antropológica também – não apenas política ou policial. “Besouro” denuncia como a religião afro-brasileira é sabotada por canalhas e exploradores da religião católica ou evangélica. Na Bahia, ainda hoje querem identificar o candomblé com o diabo, aos poucos carcomendo o que havia de mais belo na mais bela de nossas crenças.

Em vez de um Deus ameaçador ou este recente “deus de mercado” que compra almas pelos dízimos, o candomblé é múltiplo, vê os vários ângulos da personalidade humana; é uma religião “material”, com deuses que amam, matam, transam, se vingam, protegem, tudo ligado ao ventre da natureza. Muitos deuses são melhores que um só: mais democráticos.

Não é por acaso que a personagem do Besouro vai fazer sua formação na mata virgem; lá ele fica perto dos animais, do sapo, das cobras, dos besouros e lá ele domina como um aprendiz “zen” as técnicas de vencer os inimigos, mas também de re- civilizar a corrupta e cruel sociedade do latifúndio e do escravismo, do racismo e da exploração sexual das cativas,de transformar o mundo num lugar próximo à raiz da vida natural.

Quem são os poderosos que o “Besouro” enfrenta? Só fazendeiros e capatazes cruéis? Não. No estilo do filme, nos vôos de câmera, no tempo indeterminado e transiente, no ar, no sol, o filme mostra que quer esquecer o individualismo de enredos de pequenos burgueses em crise. Assim, ele vai até a alegoria épica, chega a usar os deuses misturados na trama dos homens, como numa odisséia negra. Ao lado de Besouro se encontram os orixás, que lhe dão poderes como voar e ter o “corpo fechado” e a arte de uma capoeira mágica… Um dos grande momentos é o surgimento de Exu como protetor didático, de Oxum, carinhosa e maternal ou de Iansã, protegendo o herói guerreiro ao final.

Joao Daniel fez um filme épico, contra a corrente realista de hoje, com uma fotografia excepcional também do equatoriano Enrique Chediak, com direção de arte de Cláudio Amaral Peixoto e ótimos figurinos de Bia Salgado.

O besouro é um bicho feito para não voar; mas voa. O filme também.

Fonte: A Gazeta

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