Até bem pouco, sabia-se que Lula dispunha de dois chanceleres. Havia o oficial, Celso Amorim. E o paralelo, Marco Aurélio Garcia.


Ganhou um terceiro: o plenipotenciário Hugo Chávez. Empurrou a diplomacia brasileira para o epicentro da crise institucional de Honduras.


Apeado do poder e expulso de seu país em junho, Manuel Zelaya retornou a Tegucigalpa graças a uma operação secreta financiada por Chávez.


Buscou refúgio na embaixada do Brasil, não na da Venezuela. Por quê? Esperteza do neochanceler Chávez.


Num primeiro momento, o governo brasileiro fez o que lhe cabia. Abriu as portas da embaixada para Zelaya. Depois, sobreveio a lambança. Caberia ao Brasil:


1. Conceder a Zelaya, um presidente eleito e golpeado, o status de asilado político.


2. Requerer um salvo-conduto para que Zelaya pudesse viajar sem sofrer constrangimentos.


3. Recepcionar Zelaya no Brasil, com deferência, fidalguia e honrarias.


Deu-se, porém, coisa diversa. A diplomacia brasileira rendeu-se à trama urdida pelo pseudochanceler Chávez.


Em vez de asilado, Zelaya ganhou o inusitado status de albergado numa embaixada sem embaixador.


Além da mulher, Xiomara Castro e filhos, arrastou para dentro da representação diplomática brasileira mais de 300 sequazes (!!!). Alguns deles armados. Hoje, há 70 (!!).


Fez do prédio um palanque. Discursou para simpatizantes, deu uma entrevista atrás da outra. Numa palavra: açulou os ânimos.


Ou, por outra, converteu a embaixada do Brasil num misto de hospedaria e comitê político. À luz do direito internacional, uma flagrante ilegalidade.


O governo golpista de Roberto Micheletti respondeu com o inaceitável aos absurdos de Zelaya, consentidos pelo Brasil.


Submeteu a embaixada, um pedaço do território brasileiro em Honduras, a um cerco militar. Mandou cortar a água, a luz e o telefone. Rasgou a convenção de Viena.


Não restou a Lula e a Amorim senão subir o tom. Súbito, como idealizara Chávez, o Brasil estava metido no miolo de um insondável que já produziu dois cadáveres.


A julgar pelo que disseram Lula, o chanceler oficial Amorim e o paralelo Marco Aurélio Garcia o envolvimento brasileiro foi involutário.


O governo recorreu, em uníssono, ao velho bordão do “eu não sabia”. Por essa versão, Zelaya materializara-se na embaixada sem aviso prévio.


Em nota, o golpista Micheletti refutou. Citando entrevista em que Zelaya dissera ter consultado Lula e Amorim, acusou o Brasil de “intromissão” indevida.


E Lula, em timbre peremptório: “Vocês vão ter que acreditar num golpista ou em mim”.

Zelaya estivera em Brasília no dia 12 de agosto. Voara em asas providas por Chávez. Estivera no Senado. Discursara em plenário, sob densa e irrestrita solidariedade.


Lula recebera-o em audiência. Dera-lhe respaldo moral. Estabelecera com ele um vínculo pessoal.


Àquela altura, Zelaya já cultivava a idéia de retornar a Honduras. Já havia empreendera duas tentativas, sem sucesso.


Admita-se, porque é de justiça, que Zelaya não tenha dito nada a Lula sobre o plano secreto que o devolveria a Honduras 40 dias depois.


Aceite-se como razoável a tese de que tampouco Chávez, mentor e provedor de Zelaya, tenha feito qualquer tipo de aviso ao companheiro Lula.


Nesse caso, ao dizer que “não sabia”, além de pronunciar uma verdade, Lula reivindica para si o papel de bobo.


Um bobo involuntário que, submetido à astúcia companheira de Chávez, permitiu que o Brasil migrasse da condição de nação solidária à de personagem da crise.


Meteu-se numa encrenca complexa, que cabe aos hondurenhos resolver. Ardem no caldeirão da crise um par de certezas.


Eleito, Zelaya foi deposto. Sem votos, Micheletti usurpou-lhe o cargo. Por qualquer ângulo que se olhe, é indubitável que houve em Honduras um golpe. Ponto.


Os adversários de Zelaya alegam que deram um contragolpe. Inspirado em Chávez, o presidente urdira um plebiscito para se perpetuar no poder.


Reeleição de presidente é coisa que a constituição de Honduras veda numa cláusula pétrea, imutável. O plebiscito fora proibido pela Justiça. Zelaya dera de ombros.


Diante de um enredo assim, tão desprovido de mocinhos, o ideal seria a celebração de um acordo.


No papel de mediador, o premio Nobel Oscar Arias esboçou uma proposta. Zelaya retornaria ao cargo. E o plebiscito iria ao arquivo.


Honduras escolheria seu novo presidente na eleição prevista para novembro. O Brasil ficaria mais bem posto na foto se houvesse mantido o distanciamento regulametar.


Mas Lula preferiu o papel de bobo. Até aqui, a lambança diplomática produziu duas vítimas vítimas fatais e um punhado de feridos. Torça-se para que não vire tragédia.