Cinema Novo

>Eu nasci dentro de uma camera

Posted on outubro 27, 2010. Filed under: A Suprema Felicidade, Arnaldo Jabor, cinema, Cinema Novo, filmes, líder |

>

Por Arnaldo Jabor
Eu era cineasta e virei jornalista. Fiz nove filmes e parei, há dezessete anos. Continuo jornalista, que adoro como profissão mas, de três anos para cá, resolvi filmar de novo. Alguns artigos que escrevi sobre meu passado juvenil foram a base do argumento: meu pai, meu avô, minha mãe, as primeiras buscas de amor e sexo, o Rio da bossa nova que nascia, da copa de 58, o Rio que na época era um paraíso de liberdade, até a chegada do golpe de 64. Um ano escrevendo, um ano atrás do dinheiro com meu sócio Francisco Ramalho Jr, um ano e meio para filmar, montar e agora exibir.
Cartaz do filme A Suprema Felicidade, de Arnaldo Jabor
Fiquei besta como tudo mudou. O cinema no Brasil está um show tecnológico. Antes, as condições eram terríveis, as equipes despreparadas, a fome rondava o espetáculo e variávamos entre dois sentimentos básicos: ansiedade e frustração “será que vai sair o dinheiro?” ou “os exibidores acham que o filme é um “abacaxi”.
Em 1943, meu pai foi aos Estados Unidos e comprou uma maquina de filmar, de 8 mm Kodak.
Guardo essa câmera até hoje, fico olhando o buraco da objetiva e penso que ali, naquela lente, passou minha vida inteira. Meu pai fez um verdadeiro longa-metragem de nossa familia, entre 43 e 62. Minhas primeiras imagens são de fraldas e as ultimas mostram-me com 20 anos, recebendo a espada de aspirante a oficial da reserva, perfilado no quartel do Exercito- mais de três horas de minha infância profunda em tremulas imagens riscadas. Este filme “A Suprema Felicidade” é uma volta ao passado, onde devolvo minha vida a meus pais e ao Rio que me viu crescer. Esta pequena câmera aparece no inicio do filme, nas mãos de Mariana Lima. Entrei nesta câmera e virei cineasta.
Quando comecei a filmar, em 65, as câmeras eram pobres, nossos filmes, preto-e-branco, nosso som, precário e, no entanto, a fome de mostrar o olho do boi morto, o mandacaru pobre, as mãos brutas dos camponeses, a cara boçal da classe média, fazia-nos desprezar até o aperfeiçoamento técnico, numa espécie de mímica do cotidiano proletário. Racionalizávamos nossa miséria em teoria, numa espécie de arte povera: a precariedade seria mais profunda que um “reacionário” progresso audiovisual.
Estava surgindo o Cinema Novo que, alias, nasceu num botequim.
Isso mesmo. Lá no bar do laboratório Líder, em Botafogo, foram sonhados dezenas de filmes. Hoje o bar já virou uma “acrílica” lanchonete. Mas, desse tempo mágico, ficaram as lembranças: as moscas no bico dos açucareiros, os chopes, os sanduíches de pernil, os ovos cozidos cor-de-rosa, a lingüiça frita, o cafezinho em pé. E era ali, no meio de insignificantes objetos brasileiros, era ali que traçávamos os planos para conquistar o mundo. Conspirávamos contra o “campo e contracampo”, contra os travellings desnecessários, contra o happy end, contra a fórmula narrativa do cinema americano e acreditávamos que éramos parte da salvação política do país – nossa câmera era um fuzil que, em vez de mandar balas, recolhia imagens do país para “libertar” os espectadores.
E nisto havia até uma ingênua verdade, pois o cinema moderno perdeu a magia crítica de antes, porque, quanto mais se aperfeiçoam as maneiras de devassar a “realidade”, mais distante ela fica.
Hoje, são infinitas as imagens que invadem nossas mentes e olhos. O vídeoclip, a metralhadora da publicidade, a velocidade do ritmo criaram um excesso de informações que se anulam. Tanta é a exposição da realidade do mundo, que não vemos nada. Quanto mais se fazem descobertas, mais fundo é o túnel do mistério; a máquina do mundo, quanto mais aberta mais fica vazia. O desejo dos produtores (de Hollywood, principalmente) é justamente apagar o drama humano dentro de nossas cabeças. A ação na tela é incessante, de modo a nos paralisar na vida; o conflito é permanente, de modo a impedir o espectador de ver seus conflitos internos. O Brasil está tonto, perdido entre tecnologias novas cercadas de miséria e estupidez por todos os lados. Temos uma imensa e riquíssima quantidade de formas técnicas e quase nenhum conteúdo. Antes, tínhamos fins, mas não tínhamos meios. Hoje, temos todos os meios, sem um fim claro. A tecnologia nos enfiou uma lógica produtiva de fábricas, fábricas vivas. Somos carros, somos celulares, somos circuitos sem pausa. Assistimos às chacinas diarias entre chips e websites.
Por isso, tentei fazer um filme que seja visto sem a pressa angustiada do rococó eletrônico que nos assola. Já que a vida está tão fragmentada do lado de fora dos cinemas, tenho a esperança de que uma vida mais clara apareça na sala escura.
Minha “suprema felicidade” é que o filme parece que tocou em emoções que ficaram impalpáveis nos últimos anos, pois quem muda não são apenas as produções, mas a cabeça dos espectadores. Ficamos desacostumados de cenas puras, sem manipulações e efeitos, que subtraem do público a liberdade de observar as ações das personagens, esquecemos que as ações humanas vão muito alem das corridas vertiginosas de carros ou de metralhas arrebentando corpos, esquecemos de uma dramaturgia que exponha ações complexas do drama humano.
Meu Deus, que saudade do cinema classico! Que saudade do sonho, da utopia filmica dos anos 50 e 60, alimentada pelo “Cahiers du Cinema” e pelos circulos de fumaça dos “Gitanes” sem filtro. Hoje o cinema é nu. Esta exposto nas lojas, feiras e bancas de jornais , está nos hotéis, na ponta dos dedos dos insones, está rodando bolsinha nas ruas.
Tenho saudades da sala escura, do cinema segredo, o cinema tesouro , o cinema dos pobres tímidos, o cinema como uma ilusão que nos levava ao êxtase (“ia-se ao cinema como ao bordel em busca de ilusões” (cf. Paulo Emilio Salles Gomes) , o cinema como realidade alternativa, que analisávamos noite a dentro nos bares. Ahh… como era bom esperar um filme do Fellini, a cada ano…Quando vem o novo Antonioni, o novo Bergman?
Mal me comparando a esses grandes homens, estréia no Brasil, dia 29, um “novo Jabor”.
Não me percam…num cinema perto de vocês. 
Fonte: A Gazeta
Anúncios
Ler Post Completo | Make a Comment ( None so far )

>"Besouro" e outros bichos

Posted on outubro 28, 2009. Filed under: Besouro, Cinema Novo, filme épico, Hollywood |

>

  • Arnaldo Jabor

Este filme “Besouro” de João Daniel Tikhomiroff surge num momento de “passagem” do cinema brasileiro. Vivemos divididos entre um cinema de autor e um cinema de mercado, entre um cinema que queremos fazer e um cinema que deveríamos fazer. Com a vitória do mercado como deus único, o desejo de significar alguma coisa de importante para o cinema ou para a cultura virou quase um desvio da norma.

Há alguns anos, começaram a vir para cá famosos “script-doctors”. Syd Field era um deles; as regras de ouro de Hollywood passaram a ser ensinadas aos diretores do país, como axiomas, dogmas a serem cumpridos sob pena do fracasso. Leis brancas para filmes mestiços, leis de senhores para serem obedecidas: o mocinho, o bandido, o bem, o mal, a redenção final obrigatória. Sumiram os resquícios de zelo dos produtores dos anos de ouro; tudo ficou muito frio, muito bruto.

Há pouco tempo, um executivo declarou que não é mais necessário que o autor tenha amor ao cinema; ao contrario, isso ate atrapalharia. Quem filma agora são os produtores.

No filme “Besouro” há alguma coisa parecida com filmes da década de 60, do surgimento do Cinema Novo o cinema livre dos estúdios, dos arcos voltaicos, o cinema ao sol, ao vento, ao sal, a câmera denunciando injustiças como uma arma, a impaciência com o cinema psicológico, a pele nua contra o figurino, a câmera voadora, movente como um “besouro.” Apesar do som Dolby, da “féerie” tecnológica, lembrei por instantes de filmes como “Barravento” (também na Bahia) ou “A Grande Feira” ou “Ganga Zumba”.

A ação se passa em Santo Amaro da Purificação, município do Recôncavo onde nasceu a lenda do capoeirista, no começo da década de 1920.

Ali, a comunidade de negros tenta se livrar do passado recente – pouco mais de 20 anos desde a abolição da escravidão – e em muitos lugares o trabalho assalariado dos negros e a discriminação permanente não era muito diferente do regime escravista.

“Besouro” surge em meio a outros filmes brasileiros, a outros bichos que voam mais baixo, buscando o sucesso comercial tecnicamente programado em computador o espectador manipulado como num vídeo game.

Assim como o cinema de estúdio americano era filho do teatro, o Cinema Novo era filho do documentário. “Besouro” sai desta mesma toca, do desejo de entender o país um pouco mais e da vontade de romper com a linguagem obrigatória do cinema programado. Depois de décadas de publicidade, acho que João Daniel queria ar, voar. “Besouro” é um filme de ruptura com as regras obrigatórias e também com a própria experiência em propaganda. (Eu já fiz muitos “comerciais” – vivi disso 15 anos -e sei como é; dá vontade de explodir os gabinetes e clientes escrotos; eu fiz um filme em que o cliente nos obrigou a apagar a favela da Rocinha ao fundo dos prédios em lançamento…)

“Besouro” tem uma idéia na cabeça: mostrar a dificuldade de individuação dos homens pobres (mais que negros) através de uma cultura que não chegou pelas caravelas, mas nos navios-negreiros. Assim, mostra que o escravismo não cessou com a abolição e também que o racismo vai mais alem da pele -se estende a tudo que é “diferente”. A fortaleza cultural dos pobres inquieta os capatazes da cultura oficial.

Momentos que podem parecer desvios de narrativa denotam o desejo de partir para a “fabula”. Só a fabula dá conta de situações alem da pura psicologia realista, só a fabula pula por cima do principio, meio, fim e do “happy end” simplista.

Recentemente, foram feitos filmes (bons) sobre a miséria, a injustiça social, mas faltavam trabalhos sobre as ameaças à cultura. Existe no Brasil uma grave injustiça antropológica também – não apenas política ou policial. “Besouro” denuncia como a religião afro-brasileira é sabotada por canalhas e exploradores da religião católica ou evangélica. Na Bahia, ainda hoje querem identificar o candomblé com o diabo, aos poucos carcomendo o que havia de mais belo na mais bela de nossas crenças.

Em vez de um Deus ameaçador ou este recente “deus de mercado” que compra almas pelos dízimos, o candomblé é múltiplo, vê os vários ângulos da personalidade humana; é uma religião “material”, com deuses que amam, matam, transam, se vingam, protegem, tudo ligado ao ventre da natureza. Muitos deuses são melhores que um só: mais democráticos.

Não é por acaso que a personagem do Besouro vai fazer sua formação na mata virgem; lá ele fica perto dos animais, do sapo, das cobras, dos besouros e lá ele domina como um aprendiz “zen” as técnicas de vencer os inimigos, mas também de re- civilizar a corrupta e cruel sociedade do latifúndio e do escravismo, do racismo e da exploração sexual das cativas,de transformar o mundo num lugar próximo à raiz da vida natural.

Quem são os poderosos que o “Besouro” enfrenta? Só fazendeiros e capatazes cruéis? Não. No estilo do filme, nos vôos de câmera, no tempo indeterminado e transiente, no ar, no sol, o filme mostra que quer esquecer o individualismo de enredos de pequenos burgueses em crise. Assim, ele vai até a alegoria épica, chega a usar os deuses misturados na trama dos homens, como numa odisséia negra. Ao lado de Besouro se encontram os orixás, que lhe dão poderes como voar e ter o “corpo fechado” e a arte de uma capoeira mágica… Um dos grande momentos é o surgimento de Exu como protetor didático, de Oxum, carinhosa e maternal ou de Iansã, protegendo o herói guerreiro ao final.

Joao Daniel fez um filme épico, contra a corrente realista de hoje, com uma fotografia excepcional também do equatoriano Enrique Chediak, com direção de arte de Cláudio Amaral Peixoto e ótimos figurinos de Bia Salgado.

O besouro é um bicho feito para não voar; mas voa. O filme também.

Fonte: A Gazeta

Ler Post Completo | Make a Comment ( None so far )

Liked it here?
Why not try sites on the blogroll...