História do Brasil

>A história não é bem aquela

Posted on junho 28, 2010. Filed under: História do Brasil, Leandro Narloch, Silio Boccanera |

>

Silio Boccanera

Versões menos chapa-branca da história do Brasil raramente encontram espaço nas aulas e nos livros de curso secundário, período escolar em que a maioria dos brasileiros aprende tudo o que vem a saber de História – exceção feita, naturalmente, aos que se dedicam ao assunto depois, em nível universitário, ou por interesse e esforço individual.

Daí o atrativo de um livro como Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, de Leandro Narloch, que há várias semanas ocupa vaga na lista dos mais vendidos nas livrarias de todo o país. O autor conseguiu a atenção do público para uma versão alternativa e até debochada da história, despida dos mitos de desempenhos heróicos, feitos irretocáveis e explicações conspiratórias.

Não tenho a pretensão de conhecimento especializado na área para poder garantir que tudo seja verdade nos relatos nada oficiais de Narloch, mas consegui me divertir com suas versões de que Santos Dumont não inventou o avião, a feijoada tem origem europeia e quem matou mais índios no Brasil foram os próprios índios, entre outras curiosidades.

A Guerra do Paraguai me despertou interesse imediato no livro de Narloch por causa do esforço de autor em desfazer narrativas consagradas, como a de que brasileiros mataram, naquele conflito, 95% da população masculina do país vizinho, empobrecido até hoje por “nossa” culpa ao embarcar num conflito criado pelo Reino Unido para evitar uma suposta concorrência do Paraguai na área. Sobrevive ainda a versão de que o líder paraguaio Solano Lopez teria sido um déspota esclarecido que sofreu desnecessariamente em mãos brasileiras.

Narloch atribui essas interpretações a historiadores mais interessados em promover sua agenda ideológica – geralmente “antiimperialista” – do que em explicar fatos com base em estudos de documentos de época e relatos deixados por participantes.

O autor do Guia prefere as versões de outros pesquisadores, que fizeram o “trabalho de casa” e chegaram a conclusões opostas. Estabeleceram, por exemplo, que o interesse britânico era justamente de não ter uma guerra numa área onde já tinha considerável domínio econômico.

Quanto à morte em massa de paraguaios em cinco anos de conflito contra Brasil, Argentina e Uruguai aliados, as pesquisas revelam que não existe levantamento estatístico confiável sobre a população paraguaia antes da guerra, para se poder comparar antes-e-depois, o que impede concluir pela existência do suposto genocídio denunciado em tantos livros didáticos.

Além disso, adverte Narloch, a maior parte dos soldados paraguaios não morreu como resultado de combate militar e sim por doenças e fome, em meio ao abandono e à indiferença dos líderes nacionais em relação às suas tropas formadas maciçamente por gente pobre. Como as brasileiras, aliás.

O maior desses líderes foi Francisco Solano Lopez, que a historiografia paraguaia tentou transformar em herói, com substancial ajuda no século XX do ditador Alfredo Stroessner, que teria sido ajudado pela indiferença e a complacência de muitos intelectuais latino-americanos. São pessoas que jamais teriam aceito uma versão oficial de outro ditador direitista, mas engoliram o mito propagado por Stroessner porque se encaixava com as visões pré-concebidas sobre um herói antiimperialista.

Na verdade, escreve Narloch, Solano Lopez, que mandou matar o próprio irmão para garantir sua vaga no comando familiar do país (herdou o poder do pai) era “um presidente vaidoso, cruel, louco e equivocado (…) obcecado em entrar em guerra com o Brasil”.

Narloch observa que a pretensão de Solano Lopez se misturou com estupidez suficiente dele para não ter buscado primeiro, antes de atacar o Brasil, uma aliança com a Argentina e o Uruguai, cujos teritórios ele precisava usar para atacar o vizinho-gigante. Esta falha só serviu para deixar seu país não litorâneo sem um porto para receber armas ou provisões.

Silio Boccanera é jornalista em Londres, Inglaterra. E-mail: silioboccanera@aol.com

Anúncios
Ler Post Completo | Make a Comment ( None so far )

Liked it here?
Why not try sites on the blogroll...