liderança política

>Entre a miopia política e a sustentabilidade

Posted on julho 19, 2010. Filed under: CUIABÁ, liderança política, miopia, miopia política, sustentabilidade |

> Por Wilson Cabral de Sousa Júnior

As administrações municipais no Brasil vêm sofrendo um processo de amadurecimento gradativo, após a reabertura democrática. Se num primeiro momento, na década de 1980, a liberdade de ação gerou um ambiente de libertinagem fiscal, com vários escândalos e desvios de recursos públicos em diversas municipalidades, a década seguinte foi marcada por uma leva de políticos saneadores, cujo lema se baseava essencialmente na organização fiscal das administrações municipais. Isso não deixava muita margem para o planejamento de longo prazo nem para as iniciativas mais visionárias em termos de avanços na gestão das municipalidades.
Uma vez saneadas as contas, e talvez seja este o momento atualmente vivido em Cuiabá – com certo atraso em relação às demais capitais brasileiras ao sul do paralelo 15 -, as municipalidades de maior projeção foram aquelas em que a visão do mandatário se sobrelevou à conduta eminentemente administrativa e passou a incorporar conceitos que atingem mais diretamente a qualidade de vida da população. Em outras palavras, passam a importar mais os benefícios à população, em termos de qualidade de vida, no presente e futuro, do que as agruras do regime orçamentário e as agendas meramente políticas.
Pois bem, feitas estas considerações, urge compreender os motivos pelos quais Cuiabá, a outrora “cidade verde”, se encontra em tal processo de deterioração de aspectos de caráter ambiental. Num momento em que o mundo discute e reproduz iniciativas em prol da chamada “sustentabilidade”, ainda que tal conceito seja uma utopia dado o nível de consumo da sociedade global, é triste perceber que um município com economia pujante, não tenha movido esforços para um real aumento da qualidade de vida dos seus cidadãos. Por qualidade de vida entenda-se um termo mais abrangente, que envolve: ar mais limpo, menor geração de resíduos, maior qualidade das águas, maior e melhor mobilidade urbana, dentre outros itens. O fato é que os espaços públicos de convivência da cidade, arenas típicas de construção da cidadania, estão completamente deteriorados, o que se soma aos percalços envolvendo a limpeza pública municipal e ao trânsito problemático.
A lista se estende a outros aspectos: apesar de existir legislação anti-ruído, os esforços se reduzem ao atendimento protocolar de reclamações, sem qualquer pró-atividade; a cidade cresce sem uma adequação e controle da poluição visual; a área de meio ambiente sofre de um ostracismo político no seio da administração e possui pouca ou nenhuma ingerência sobre o planejamento municipal. Atualmente já não é preciso um estudo científico metódico e rigoroso para perceber a relação dose-resposta do crescimento desorganizado da cidade e de seu ônus socioambiental. Há que chegar, portanto, o momento – e Cuiabá está carecendo disso – em que uma liderança política, imbuída de uma visão peculiar e visionária, apontará o cenário de uma cidade onde a qualidade de vida se torne, de fato, e em seu caráter mais abrangente, o objeto de trabalho da administração municipal. Nada impede, e, aliás, seria algo muito auspicioso, que a mudança de visão ocorresse já.

Wilson Cabral de Sousa Júnior é doutor em Economia, professor de Desenvolvimento e Meio Ambiente do Instituto Tecnológico de Aeronáutica/ITA. E-mail: wilson@ita.br

Anúncios
Ler Post Completo | Make a Comment ( None so far )

Liked it here?
Why not try sites on the blogroll...