militância

>O Chavismo cordial

Posted on maio 5, 2010. Filed under: Arnaldo Jabor, Chavismo, cordial, economia, estatização, militância, política |

>por Arnaldo Jabor

Dilma Rousseff tem de ser ela mesma. Seu duro passado de militância política lhe deixou um viés de rancor e vingança, justificáveis. Ela tem todo o direito de ser uma típica “tarefeira” da VAR-Palmares, em vias de realizar o sonho de sua juventude, se eleita. Ela tende para a estatização da economia, restos de sua formação leninista; ela tem o direito de ser irritadiça, pois o pais é irritante mesmo. Seus olhos fuzilam certezas sobre como consertar a pátria amada. Ela pode achar que democracia é “papo para enrolar as massas”, ela pode desconfiar dos capitalistas e empresários, ela pode viver gostosamente a volúpia do poder que conquistou, ela pode ignorar a queda do muro de Berlim, o fim da guerra fria, ela pode amar o Lula, seu símbolo do operário mágico que encarnou na prática a vazia utopia do populismo “revolucionário”. Ela pode tudo, mas tem de assumir sua personalidade.

Meu Deus, como eu entendo a cabeça da Dilma, mesmo sem conhecê-la pessoalmente… Conheci muitas “dilmas” na minha juventude, quando participei da fé revolucionaria de nossa geração. Para as “dilmas” e “dirceus” do passado, a democracia é uma instituição “burguesa” – ( Lênin: “É verdade que a liberdade é preciosa; tão preciosa que precisa ser racionada cuidadosamente” ). Ela se considera membro de uma minoria que está “por dentro” da verdade, da chamada “linha justa”, ela se julga superior – como outros e outras que conheci – inclusive eu mesmo…( oh, delicia de ser melhor que todos…oh…que dor eu senti ao perder essa certeza…”). Nós éramos os fieis de uma “fé científica”, uma espécie de religião da razão praxista, que salvaria o mundo pelo puro desejo politico éramos o “sal da terra”, os “sujeitos da história”.

Mas, só uma dor me devora o coração: Dilma está sendo “clonada”. Esta frente unida do auto-deslumbramento de Lula com a massa sindicalista-pelega, quer transformá-la em uma “dilma” que não existe. Uma nova pessoa, um clone dela mesma. Isto é muito louco. É natural que o candidato beije criancinhas, coma bode e puxe o saco de evangélicos…tudo bem.

Mas, o tratamento a que submetem a pobre da Dilma me lembra uma famosa cena de Brecht, em “Arturo Ui”, em que um velho ator shakespeareano bêbado e decadente é convocado para ensinar a “Hitler” (Arturo Ui) como se comportar diante das massas, recitando o discurso de Marco Antonio em “Julio César”. É genial a cena em que aos poucos o “hitler” vai virando um boneco de engonço, com gestos e falas de robô quebrado.

A finalidade da faxina que marqueteiros e “pt-psicólogos” fazem na moça é esta: criar alguém que não existe e que nos engane, alguém que pareça o que não é. Afinal, que querem esconder? Querem uma re-edição “dilminha paz e amor”? Ou querem Lula e ela em um filme tipo “Se eu fosse você 3”, como piou o Agamenon? Um cacófato: quem será o Duda dela? Será que foi por isso o ato falho de falar em “lobo em pele de cordeiro”? Será “lobo” ou “loba”? Alem do piche no Serra, não será também uma involuntária alusão a Lula ou a ela mesma? Dilma é uma loba em pele de cordeiro?

Isso é grave. O PT não se envergonha de criar uma pessoa artificialmente fabricada em quem devemos votar? Será que seguem ainda a máxima de Lênin: “Uma mentira contada mil vezes vira uma verdade”?

Querem que ela seja uma sorridente “democrata”, uma porta colorida para a invasão da manada de bolchevistas que planejam mudar o país para trás, na contramão da tendência da economia global. Eu os conheço bem…A crescente complexidade da situação mundial na economia e na politica os faz desejar um simplismo voluntarista que rima bem com o fundamentalismo islâmico ou com a boçalidade totalitária dos fascistas: “complexidade é frescura, o negocio é radicalizar e unificar, controlar, furar a barreira do complexo com o milagre simplista”. (Stalin: ” A humanidade está dividida em ricos e pobres, proprietários e explorados. Subestimar esta divisão significa abstrair-se dos fatos fundamentais” ou Lênin -“Qualquer cozinheiro devia ser capaz de governar um pais”).

O espantoso nisso é que o país melhorou graças ao Plano Real e uma série de medidas de modernização que abriram caminho para a economia mundial favorecer-nos como um dos países emergentes e esse raro e feliz fenômeno econômico (James Carville, assessor do Clinton contra Bush: “É a economia, estúpido!”) é tratado como se fosse uma política do governo atual, que só fez aumentar despesas publicas e inventar delírios desenvolvimentistas virtuais. (Stalin: “A gratidão é uma doença de cachorros…”)

O povão do Bolsa Família não pode entender isso. Muitos intelectuais entendem, mas não têm a coragem de explicitar as diferenças o lobby da velha “boa consciência de esquerda” intimida-os. Nesta eleição, não se trata apenas de substituir um nome por outro. Não. O grave é que tramam uma mudança radical na estrutura do governo, uma mutação dentro do Estado democrático. Vamos viver um pleito pretensamente “revolucionário”, a tentativa de um Gramsci vulgar (filósofo que dizia que os comunistas devem se infiltrar na democracia para mudá-la). Querem fazer um capitalismo de Estado, melhor dizendo, um ” patrimonialismo de Estado”. Para isso, topam tudo: calúnias, números mentirosos, alianças com a direita mais maléfica. (Stalin: “Não deixamos os inimigos ter armas de fogo; por que deixar que tenham ideias?”)

Não esqueçamos que o PT combateu o Plano Real até no STF, como fez com a Lei de Responsabilidade Fiscal, assim como não assinou a Constituição de 88. Este é o PT que quer ficar na era pós-Lula. Seu lema parece ser: “em vez de burgueses reacionários mamando na viúva, nós, do povo, nela mamaremos”.

Depois desse “bonapartismo cordial” que o Lula representou até com galhardia, se apropriando da “herança bendita” de FHC, pode haver o inicio de uma nova fase: o “chavismo cordial”. É isso ai, bichos…   Fonte: A Gazeta

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>Brasil, uma pátria de meias e patacas

Posted on dezembro 5, 2009. Filed under: Brasília, Brasil, democracia, eleições, escândalos, greves, mágoas, militância, pátria, UNE |

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O Brasil é mesmo a pátria do panetone. Tudo aqui é festivo, ocasional, furtivo. Nossos protestos menores, nossas mágoas maiores. Tudo dura até o próximo verão, a próxima semana. Nunca mais que a próxima eleição. Para conferir isso, basta lembrar que depois de renunciar ao mandato de senador, por ter violado o painel eletrônico do Senado, o intrépido José Roberto Arruda foi promovido – talvez pela evidência do pequeno delito – a governador de Brasília.

Na época de violador da democracia, ele foi achincalhado. Algumas eleições depois, condecorado, promovido, absolvido pelo próprio povo. Como no célebre poema de Augusto dos Anjos, “a mão que afaga, é a mesma que apedreja”. Isso é o Brasil, esta é a nossa tosca democracia, sustentada por um provincianismo primário, filha bastarda de nossa servil consciência cívica.


República de meias e patacas, de cuecões e gravatas, não vimos o amadurecimento dos Caras Pintadas, que guardaram suas fantasias após o primeiro carnaval. Tudo aqui é assim, teatral, banal, nunca original, como se o país fosse um eterno baile de carnaval. Para o movimento estudantil e os congressos universitários, os eternos piqueniques ideológicos, exercendo sua cota de democracia com a eleição desse ou daquele presidente da UNE, tão comprometido quanto alienado. Os protestos não são para mudar o país, para mudar nossa sociedade, mas sim para mudar a visão e o conceito que as pessoas têm sobre cada um de nós. Como somos desprovidos de civismo. Como pagamos caro por nossa tola e inocente consciência política.


Isso justifica nossa representação popular, desfilando seus fantasmas em plena luz do dia. Como podemos pensar em um novo país, em um Brasil melhor, tendo um congresso composto por homens do quilate de Paulo Maluf, de José Genoino, Jader Barbalho, Antônio Palocci, Fernando Collor, entre tantos outros, durante tantos anos de desmandos e prevaricações. Essa é a pátria dos mensalões e dos mensalinhos, uma nação bem mensalina, bem sem vergonha, que troca seu futuro, o seu voto, por uma cesta básica, por uma ajudinha. É o corrompido corrompendo o corruptor, coisas do nosso amado Brasil!


Sabendo bem como se faz greves e como se organiza protestos, o Brasil de Lula é um Brasil silenciado, domesticado, docilizado: dos movimentos sindicais à militância partidária; dos movimentos estudantis às organizações não-governamentais. Todos, por certo, registrando seu mensalão ideológico, sua verbinha providencial. É no Brasil da impunidade que a corrupção viceja, é no Brasil da passividade que os escândalos se repetem. Lamentavelmente!


A nossa democracia, o nosso parlamento, é mesmo uma festa à fantasia… Cada um interpretando um personagem, cada um nos aplicando uma trágica peça. Tem o que ama, o que protesta, o que ri. Tem também o mau e o cara de pau. E, no final, todos se banqueteiam e se coçam, em uma mesma festa.

Autor:Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor. http://www.petroniosouzagoncalves.blogspot.com
Fonte: A Gazeta

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