Nietzsche

>A arte tem de cantar na chuva

Posted on dezembro 9, 2009. Filed under: 2012, animais, Arnaldo Jabor, Cabaret Voltaire, galáxias, Hollywood, Hubble, natureza, Nietzsche, Nova York, planeta, tubarões |

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Nietzsche escreveu: “Há muitos séculos, em um ponto perdido do universo, banhado pelas cintilações de inúmeras galáxias, houve um dia um planeta em que animais inteligentes inventaram o Conhecimento. Foi o instante mais arrogante e mais mentiroso da história do universo, mas foi apenas um instante. Depois de alguns suspiros da natureza, o planeta se congelou e os tais animais inteligentes tiveram que morrer.”

Parece o prólogo de “Guerra das Estrelas”, mas é uma ironia, porque Nietzsche achava que, por trás da busca científica e racional da verdade, mora o desejo da morte, de esgotamento da vida, por uma letal explicação de tudo. No mundo atual, vemos o espantoso descompasso entre o avanço científico e humano, vemos a convivência horrível entre o Hubble, a fome e o massacre de miseráveis.

Nietzsche sonhava com um futuro (nem ele escapou de um “finalismo”…) que daria sentido à vida:

“A arte é mais poderosa que a Ciência, pois ela quer a vida, enquanto o objetivo final do conhecimento é o aniquilamento.” Claro que não tenho nível para aprofundar este tema; mas temos hoje esta maravilhosa e imprevisível metástase da informação digital da tecno-ciência ao lado do indigente, tuberculoso desempenho artístico do mundo.

Onde está a grande arte hoje? A falta de esperança ou da ilusão de futuro gerou uma debandada em todas as direções:

O catastrofismo para as massas (“2012”), a industria dos “best-sellers” e auto ajuda, a literatura engajada, a literatura do cinismo histérico de um caos “pop”, os tubarões petrificados (Damian Hirst), latinhas de cocô de outros picaretas e a ausência de musica erudita relevante.

No cinema, por exemplo, temos de um lado o mercantilismo escroto de Hollywood e do outro a agonia do filme independente.

Até pouco tempo, alguns cineastas americanos tinham fascínio por climas “densos”, como eles imaginavam que era a “arte européia”. Geralmente, esses filmes ficavam ridículos.

Era patético ver os comedores de cachorro-quente falando do Ser e do Nada. Mas até isso acabou.

Com a morte do “Absoluto europeu”, os ideólogos do mercado estão eufóricos. A expressão “euro-centrismo” passou a ser um xingamento. Os mercadores americanos chamam os europeus de “decadentes e intelectualizados”. Seu fracasso seria devido ao “esnobismo”, recusando-se a qualquer coisa que faça sucesso comercial. Dizem: “Como são incapazes de se modernizar (leia-se: “americanizar”), os europeus se “refugiam no passado”.”

“O último grande pintor francês foi o Jean Dubuffet”, afirma a besta quadrada do Fernando Botero, o mais domesticado dos pintores latinos e, claro, sucesso entre os burgueses de Nova York. O pior é que é verdade. A pintura européia, a música, o cinema, tudo está na UTI. Mas, a culpa é de quem? A Europa teria ficado burra? Os americanos acham que a Europa é “inteligente demais”, e que isso atrapalharia a criação artística.

Sempre houve uma bronca contra a “profundidade” da cultura do Velho Mundo. Isto foi tema de vários musicais e chegou, paradoxalmente, a criar obras-primas como “Cantando na chuva” ou “Band Wagon” (“Na roda da fortuna”).

E no entanto, eles não sabem que a genial originalidade de seu cinema vem justamente do “superficial” em filmes sem ambições. Busby Berkeley foi tão importante quanto os “Ballets Russes”.

Do outro lado do muro, vemos a solidão melancólica das vanguardas e dos filmes independentes.

Nos guetos, a vanguarda luta desde 1916, desde o Cabaret Voltaire, desde o dadaísmo, mas parece que ninguém mais presta atenção nestes “excluídos”, porque, como sacaneou o Louis Jouvet: “Tudo muda, só a vanguarda não muda…”

O conceito de “experimental” está muito ligado à idéia de sofrimento, autodestruição, à proibição da redundância como um crime e ao cultivo do desagradável e do frio. A experimentação tinha de ser, como queria Stravinsky, “exaltante”. A arte se fechou numa paranóia conceitual e minimalista. Ou melhor, o mundo fechou os artistas.

Movidos pela idéia socrática que Nietzsche tanto ataca, de que a arte tem de ser subordinada à Razão, os artistas caíram numa denúncia melancólica das impossibilidades. Não há futuro para a arte subordinada à razão, seja ela digital, mercantil, iluminista ou o cacête a quatro.

Prevaleceu a vertente “triste” do modernismo, a vertente “conceitual” que joga sobre o “mal do mundo” apenas um vago mau humor, uma ideologia nevoenta de criticismo, apenas uma arte enojada contra o mal-estar da civilização. Acho que está na hora de se recriar um construtivismo positivo, em vez da destrutividade automática.

Por que a melancolia seria mais profunda que a alegria?

O “novo” não poderia ser um “belo” que denuncia , com sua luz, a injusta vida?

Será a melancolia a única forma de reflexão? Como então explicar Fred Astaire, a arte pop, o jazz? Michael Jackson?Depois do pop, será que uma “Aids conceitual” não atacou tudo, depauperando a luta? E se a arte tentasse disputar pau a pau com o Sistema, mesmo sabendo que perde, em vez de cair nesta auto-flagelação acusatória?

Outro dia fui ver “Lua Nova” com meu filho. O filme é ruim, mas é “bom” há ali algo de novo, como se fosse filmado e montado por vampiros e lobisomens. “Batman” tambem é ruim, mas é “bom” um apocalipse ou uma apoteose de efeitos especiais que transformam em caretice linear o surrealismo ou o dada. Sempre esculachei o cinema brutalmente comercial, mas hoje vejo que há nestes novos delírios de massa alguma semente formal do que poderíamos chamar de um novo “barroco digital”.

Precisamos de arte, como uvas e frutos e danças e como um coro de Silenos, de Dionísios, pois a ciência e a razão querem chegar até os ossos da “essência”. A arte tem de ser o grande ritual de embelezamento da vida. Nietzsche: “A ilusão é a essência em que o homem se criou.”

A arte é a ilusão aceitada, a clareza feliz de que a aparência é o lugar do humano e que só nos resta essa hipótese de felicidade num planeta gelado.

Autor: Arnaldo Jabor
Fonte: A Gazeta


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>O papel da mentira

Posted on setembro 1, 2009. Filed under: Agostinho, Casa Civil, Comissão de Ética, Maquiavel, Marketing, mentira, Nietzsche, Platão |

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Recentemente, esta coluna recebeu um e-mail que trazia a seguinte indagação: “É possível, o jogo político sem a mentira?” Correspondência, no mínimo, curiosa, sem, contudo, deixar de ser instigante. O verbo instigar, aqui, ainda que não traga o sentido imperativo, obriga o analista a pensar sobre a temática muitas vezes debatida. Debate que se estendeu de Platão a Agostinho, de Maquiavel a Nietzsche, passando por filósofos modernos e até pós-modernos. Porém, nenhum deles parece ter esgotado o tema. Isso porque ao falar em mentiras pode levar a mencionar verdades, sobretudo quando se tenta refutar aquelas. Mentiras e verdades, por outro lado, são termos que carregam um grau de subjetividade.

Situação em que, no campo político-eleitoral, o subjetivo extrapola o limite do pessoal para assumir o caráter de coletivo. Amarrado, então, com o discurso ideológico, cuja regra não é outra senão a da hipocrisia normatizada entre os atores do tablado político. Entende-se o porquê a mentira é revelada sob sutilezas enganosas, justificada de algum modo ao segredo, e, por conta disso, apresenta-se potencializada pela cumplicidade, mesmo que inconscientemente pela maioria da população, que serve de escoadouro na reprodução da farsa.


Nesse sentido, explica a história dos chamados atos secretos. Tão secretos que senador algum “tinha conhecimento dos ditos atos”. Talvez seja por isso que o presidente da Comissão de Ética do Senado optou pelo arquivamento das onze representações contra o presidente da Casa. A farsa apareceu em forma de falta de provas. Suposta ausência que também é utilizada para ignorar a existência de um encontro entre a ex-secretária da Receita e a ministra-chefe da Casa Civil, no final do ano passado.

É a palavra de uma contra a de outra. Daí a adoção do maquiar o cenário. Igual ao que se ouve e presencia na época das eleições, com um dado candidato tentando desqualificar o seu interlocutor, no instante em que procura vender a si próprio como o melhor de todos. Surgem, então, “o caçador de marajás”, “Lulinha paz e amor”, “não político tradicional”, etc. Cada um desses se colocou como diferente dos demais. Embora não fosse, o eleitorado se deixou levar pelos seus discursos, que realçavam uma maneira “moderna” de governar, sem a mistura do público com o privado.


Nada disso, porém, aconteceu. O que se viu foi o estilo antigo com a roupagem nova. Promessas não cumpridas. Daí todo o “rosário” da ópera bufa, na qual a Operação Uruguai passa a ser fichinha se comparada ao esquema do mensalão, enquanto o dinheiro na cueca se perde no arquivo de notícias velhas, tal como acontece com o dossiê dos gastos do governo passado. Gestão que muitíssimo se assemelha a atual no que tange a distribuição de emissoras de rádio entre os privilegiados da República.


Contar com um veículo de comunicação pode ser importante na luta pelos votos. Votação necessária para a conquista e a manutenção do poder de mando. Processo de obtenção que não se dá sem as mentiras vendidas como verdades. Próprio do jogo. No entanto, se pode alegar o “não ser de propósito”. Observação que anuncia a hipótese de que “por razões estruturais, será sempre impossível provar, em sentido estrito, que alguém mentiu mesmo se podendo provar que não disse a verdade. É a história do “nada ver”, “nada saber”. Lembra-se! Não se poderá nunca provar que uma pessoa faltou com a verdade. Sobretudo quando ela alegar a diferença sempre possível entre o dito, o dizer e o querer-dizer. São os efeitos da língua, da retórica, do desdizer o que foi dito pelo contexto do “não é o que queria dizer”, e por aí vai.


Situação própria do cenário político. Neste, em um dado momento, pode se visualizar a separação de velhos parceiros; ao passo que, em outros, adversários políticos ferrenhos posando de amigos inseparáveis, em função das conveniências pessoais e interesses grupais. Entende-se, então, o porquê a mentira terá sempre espaço no jogo político. Ainda que sob a vestimenta da propaganda, auxiliada pela maquiagem do marketing.

Lourembergue Alves é professor universitário e articulista. E-mail: Lou.alves@uol.com.br –

Fonte: A Gazeta

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