obrigação

>Entre a obrigação e a devoção

Posted on outubro 1, 2010. Filed under: celulares, devoção, Fernando Henrique Cardoso, Getúlio Vargas, Lula, moeda, obrigação, PSDB, telefones |

>

 

por Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa
Sou grata ao presidente Fernando Henrique Cardoso por ele ter sabido escolher um time de primeira linha para dar ao Brasil o que nunca tivemos: o real, enfim uma moeda.

Acabar com a inflação indecente e cruel de tantos anos foi, depois das leis sociais de Getúlio Vargas, o melhor que nos aconteceu.

Sou grata a ele por ter escolhido um excelente ministério, formado por pessoas de qualidade.

Sou grata a ele pelos celulares e telefones que hoje são arroz de festa na casa dos brasileiros.

Sou grata a ele pela demonstração que deu ao passar a faixa ao Lula e pelo respeito ao processo democrático, coisa ainda rara entre nós. Pena que o PSDB não lhe tenha sido grato.

Assim como não posso deixar de ser grata aos militares por terem nos proporcionado a possibilidade de falar ao telefone entre os estados sem ter que marcar dia e hora… pegar o telefone e discar do Rio para São Paulo ou Recife assim como quem ligava do Centro para Copacabana, só quem experimentou o drama que eram as comunicações nas décadas anteriores, pode compreender.

Ou como deixar de ser grata ao governador Carlos Lacerda por ter resolvido o gravíssimo problema da falta d’ água no Rio? Ou por ter ligado a Zona Norte à Zona Sul? Só quem viveu no Rio onde de dia faltava água e de noite luz e onde, para ir do Maracanã ao Leblon, era uma longa excursão, se solidarizará comigo.

Todos esses foram perfeitos governantes? Não, longe disso. Alguns até pelo contrário, como os militares ou Lacerda, francamente, que Deus os tenha em sua santa misericórdia.
Como em tudo mais, no comando da nação nem todos foram inteiramente maus, nem inteiramente bons. Todos fizeram algum bem e algum mal ao Brasil. Houve erros e acertos.

Outro exemplo: a um grande democrata que nos governou, Juscelino, devemos Brasília. Pois é.

O presidente Lula, por sua vez, acertou ao manter a política econômica do governo anterior. Foi bem sucedido ao adotar os programas sociais que encontrou e vitaminá-los. Foi parte do que prometeu, e cumpriu. Mas, e as outras promessas? O tal país do futuro? Cadê?

Em seu governo camadas inteiras da sociedade brasileira, antes excluídas do mercado consumidor, passaram a ter acesso a bens de consumo como equipamentos eletrônicos, TVs de alta tecnologia, carros, viagens, etc.

Através da concessão de linhas de crédito e de programas sociais que ele só fez ampliar, mas não controlou, o governo Lula criou também uma ilusão coletiva de falsa prosperidade.

Com isso, a nova classe média, a quem falta o principal, educação, passou a acreditar que ascendeu socialmente. A casa pode não ter esgoto, a rua estar um caco, a escola não ensinar, o hospital, quando existe, não ter médicos, “mas eu posso entrar nas Casas Trololó e comprar uma TV de 42 polegadas e por isso amo o Lula!”…

O mais grave é que a nenhuma dessas pessoas, nessas condições, ocorre que, de uma maneira geral, sem saneamento básico, saúde e educação, sua vida não melhorou de forma substantiva.

A ninguém parece ocorrer, também, que um dia a conta disso tudo vai chegar. A verdadeira herança maldita que o Brasil vai receber é essa: o simulacro de prosperidade, sem lastro em um verdadeiro progresso.

Acresce que outro mal maior nos sucedeu: o presidente Lula está convencido que fez o Brasil. Ele se acha a oitava maravilha do mundo, acima do bem e do mal e portanto no direito de nos impingir o que quer. O país é dele e ele nomeia quem quer para tomar conta de seu feudo por breves instantes.

“Eu, ao eleger a presidenta Dilma”! Essa frase diz tudo. É quase um tratado do que é o Lula.
Não vai ser você, nem o Joaquim, nem o João. Quem vai eleger a Dilma vai ser ele. Melhor assim. Quando a conta chegar, e vai chegar, quem vai pagar é ele.

A foto do fim de festa, na Passarela Adoniran Barbosa, em São Paulo, no comício de domingo passado, mostra bem a nossa situação: os olhares, as poses, os pares a bailar e o povaréu lá em baixo, hipnotizado, encantado.

Primeiro a devoção, depois a obrigação, parece ser o lema dos três governos Lula. E que Deus proteja Michel Temer, são meus votos.

Fonte: Blog do Noblat

Anúncios
Ler Post Completo | Make a Comment ( None so far )

>A felicidade é uma obrigação de mercado

Posted on agosto 4, 2010. Filed under: Arnaldo Jabor, esperança, Felicidade, galáxias, Mercado, obrigação, pessimista |

>Por Arnaldo Jabor

Desculpem a autorreferência, que é vitupério – mas, estou terminando meu filme “A Suprema Felicidade”, que me tomou três anos, entre roteiro, preparação e filmagem. Agora, sairá a primeira copia.
Amigos me perguntam: “Que é essa tal de “A Suprema Felicidade”? Onde está a felicidade?” Eu penso: que felicidade? A de ontem ou a de hoje?
Antigamente, a felicidade era uma missão a ser cumprida, a conquista de algo maior que nos coroasse de louros; a felicidade demandava “sacrifício”. Olhando os retratos antigos, vemos que a felicidade masculina estava ligada a idéia de “dignidade”, vitória de um projeto de poder. Vemos os barbudos do século 19 de nariz empinado, perfis de medalha, tirânicos sobre a mulher e os filhos, ocupados em realizar a “felicidade” da família. Mas, quando eu era criança, via em meus parentes, em minha casa, que a tal felicidade era cortada por uma certa tristeza , quase desejada. Já tinha começado o desgaste das famílias nucleares pelo ritmo da modernidade.
Hoje, a felicidade é uma obrigação de mercado. Ser deprimido não é mais “comercial”. A infelicidade de hoje é dissimulada pela alegria obrigatória. É impossível ser feliz como nos anúncios de margarina, é impossível ser sexy como nos comerciais de cerveja. Esta “felicidade” infantil da mídia se dá num mundo cheio de tragédias sem solução , como uma “Disneylândia” cercada de homens-bomba.
A felicidade hoje é “não” ver. Felicidade é uma lista de negações. Não ter câncer, não ler jornal, não sofrer pelas desgraças, não olhar os meninhos-malabaristas no sinal, não ter coração. O mundo esta tão sujo e terrível que a proposta que se esconde sob a idéia de felicidade é ser um clone de si mesmo, um andróide sem sentimentos.
O mercado demanda uma felicidade dinâmica e incessante, cada vez mais confundida com consumo, como uma “fast food” da alma . O mundo veloz da internet, do celular, do mercado financeiro nos obriga a uma gincana contra a morte ou velhice, melhor dizendo, contra a obsolescência do produto ou a corrosão dos materiais.
A felicidade é ter bom funcionamento. Há décadas, o precursor McLuhan falou que os meios de comunicação são extensões de nossos braços, olhos e ouvidos. Hoje, nós é que somos extensões das coisas. Fulano é a extensão de um banco, sicrano comporta-se como um celular, beltrana rebola feito um liquidificador. Assim como a mulher deseja ser um objeto de consumo, como um “avião”, uma maquina peituda, bunduda, o homem também quer ser uma metralhadora, uma Ferrari, um torpedo inteligente, e mais que tudo, um grande pênis voador.
A idéia de felicidade é ser desejado. Felicidade é ser consumido, é entrar num circuito comercial de sorrisos e festas e virar um objeto de consumo. Não consigo me enquadrar nos rituais de prazer que vejo nas revistas. Posso ter uma crise de depressão em meio a uma orgia, não tenho o dom da gargalhada infinita, posso broxar no auge de uma bacanal. Fui educado por jesuítas, para quem o sorriso era quase um pecado, a gargalhada um insulto.
Bem – dirão vocês – resta-nos o amor…Mas, onde anda hoje em dia, esta pulsão chamada “amor”?
O amor não tem mais porto, não tem onde ancorar , não tem mais a família nuclear para se abrigar. O amor ficou pelas ruas, em busca de objeto, esfarrapado, sem rumo. Não temos mais musicas românticas, nem o lento perder-se dentro de “olhos de ressaca”, nem o formicida com guaraná. Mas, mesmo assim, continuamos ansiando por uma felicidade impalpável.
Uma das marcas do século 21 é o fim da crença na plenitude, seja no sexo, no amor e na política.
Se isso é um bem ou um mal, não sei. Mas é inevitável. Temos de parar de sofrer romanticamente porque definhou o antigo amor…. No entanto, continuamos – amantes ou filósofos – a sonhar como uma volta ao passado que julgávamos que seria harmônico. Temos a nostalgia lírica por alguma coisa que pode voltar atrás. Não volta. Nada volta atrás.
Sem a promessa de eternidade, tudo vira uma aventura. Em vez da felicidade, temos o gozo rápido do sexo ou o longo sofrimento gozoso do amor; só restaram as fortes emoções, a deliciosa dor, as lagrimas, motéis, perdas, retornos, desertos, luzes brilhantes ou mortiças, a chuva, o sol, o nada. O amor hoje é o cultivo da “intensidade” contra a “eternidade”. O amor , para ser eterno hoje em dia, paga o preço de ficar irrealizado. A droga não pode parar de fazer efeito e , para isso, a “prise” não pode passar. Aí, a dor vem como prazer, a saudade como excitação, a parte como o todo, o instante como eterno. E, atenção, não falo de “masoquismo”; falo do espírito do tempo.
Há que perder esperanças antigas e talvez celebrar um sonho mais efêmero. É o fim do “happy end”, pois na verdade tudo acaba mal na vida. Estamos diante do fim da insuportável felicidade obrigatória. Em tudo.
Não adianta lamentar a impossibilidade do amor. Cada vez mais o parcial, o fortuito é gozoso. Só o parcial nos excita. Temos de parar de sofrer por uma plenitude que nunca alcançamos.
Hoje, há que assumir a incompletude como única possibilidade humana. E achar isso bom. E gozar com isso.
Não há mais “todo”; só partes. O verdadeiro amor total está ficando impossível, como as narrativas romanescas. Não se chega a lugar nenhum porque não há onde chegar. A felicidade não é sair do mundo, como privilegiados seres, como estrelas de cinema, mas é entrar em contato com a trágica substância de tudo, com o não-sentido, das galáxias até o orgasmo. Usamos uma mascara sorridente, um disfarce para nos proteger desse abismo. Mas, esse abismo é também nossa salvação. A aceitação do incompleto é um chamado à vida
Temos de ser felizes sem esperança. E este artigo não é pessimista…
Ler Post Completo | Make a Comment ( None so far )

Liked it here?
Why not try sites on the blogroll...