Olimpíadas

>O pobre e o rico

Posted on outubro 3, 2009. Filed under: Copa do Mundo de Futebol, Copacabana, Olimpíadas, pobre, rico |

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O Rio de Janeiro talvez esteja com sua última oportunidade de se tornar novamente a “Cidade Maravilhosa”. Aquele Rio dos anos 60/70 em que se podia sentar até altas horas na beira da calçada e rolar conversas sem medo algum. Aquele Rio em que às quatro da madrugada se via muitas pessoas, principalmente idosos, a passear palas calçadas da avenida Copacabana para ver as vitrines que os lojistas levavam horas e mais horas preparando a decoração durante a noite.


O vídeo preparado pelo Fernando Meirelles deixou muito a desejar diante das possibilidades oferecidas pela natureza exuberante da cidade e da região. Parece que a sua experiência de cineasta encontrou a maneira de esconder o abandono em que se encontra o Rio de Janeiro. Sujeira é que não falta por lá, muitas reformas serão necessárias, desde prédios públicos até as fachadas dos edifícios residenciais. O que tem salvo o Rio, do caos visual na TV e outras mídias, são algumas vias e prédios da orla Ipanema e Leblon. O resto, principalmente Copacabana, total abandono. O plano ofertado por Meirelles, sombrio, foi providencial.


O presidente, na sua euforia, que não é para menos ante o efeito nas urnas de acordo com sua ações de resultados imediatistas, fez pronunciamentos dentro do padrão terceiro-mundista tais como “agora o mundo sabe quem é o Brasil, vão ter que considerar o Brasil como país de primeira classe e não mais como de segunda classe”. Presidente, o objetivo deveria ser outro nesse seu pronunciamento. São tantos os temas que poderiam nortear suas declarações em um conteúdo mais vigoroso e cabível para a ocasião, que é difícil colocá-los todos aqui. O Senhor poderia falar dos efeitos do evento “Olimpíadas” para o avanço do esporte, da educação, da infraestrutura, da autoestima para o povo brasileiro, do próprio setor econômico e suas vertentes além, é claro, da geração de empregos e consolidação do turismo mundial em nosso solo. Essa fala de ranço ideológico e de recalque ficou fora de tempo e lugar. Problemas de assessoria ou de sua teimosia em não escutá-la.


Foi jogada nas mãos do próximo mandatário uma enorme responsabilidade. Além da Copa do Mundo de Futebol, agora mais um investimento obrigatório de pesado cunho econômico e financeiro. Alguns dizem que um completa o outro. Ledo engano, uma vez que o custo Rio será muito mais pesado que a Copa do Mundo. Este custo tem gigantescos problemas na saúde que envolve desde atendimento hospitalar e ambulatorial até a sucateada rede de saneamento, como exemplos a baía da Guanabara, Lagoa Rodrigo de Freitas, Barra etc. Não se tem dimensão dos problemas na área social que vão da educação à bandidagem, passando pela precária infraestrutura dos transportes e conservação de vias públicas. É um evento esportivo de muito maior impacto que a copa até porque está centrado em uma única cidade durante quase mês.


Os resultados para a cidade e população dos jogos Panamericanos foram ínfimos. Efeitos mesmo, só a relativa à segurança no período de realização dos jogos. O Rio recebeu mais de três bilhões de reais em investimento, o que pouco acrescentou de prático em melhoria à sua vida. Elefantes brancos é que não faltam ante o abandono de várias praças esportivas. Mesmo o estádio João Havelange pouco tem servido como estrutura de desenvolvimento esportivo e social. O parque aquático, bem, prefiro não comentar. É perda de espaço e tempo. Estamos entrando na era olímpica sem qualquer planejamento consistente, o que não foi o caso de Madri, uma das concorrentes à sede. Tudo pronto e preparado em todos os sentidos menos, talvez, no político.


Sobre este tema, o que ficou claro e insofismável, foi a consciência cidadã do povo de Chicago. Em um momento de economia negativa, a população daquela cidade impôs ao governo americano a sua rejeição e inoportunidade de realizar um evento de tal envergadura com o trato que ele merece. A consciência de cidadania foi expressada mesmo sendo os Estados Unidos um país de enorme capacidade financeira até nos momentos de crise. É o que tem salvo e salvou o mundo de uma catástrofe financeira de grandes proporções. Foram os mais, até agora, de nove trilhões de dólares colocados no sistema financeiro e outros sete e meio trilhões de dólares investidos na recuperação econômica que vai desde a infraestrutura até a economia de mercado. Para se ter uma ideia do tamanho disso, o Brasil ainda não colocou mais do que dois e meio trilhões de reais.


É verdade que nossa economia não tem a dimensão da americana e talvez daí a nossa melhor facilidade de recuperação, ainda capenga e não resolvida. Os últimos dados nos informam disso. Como exemplos, a indústria recuou seu crescimento em mais de 7%. A exportação brasileira caiu mais de 25% em nove meses e continua o desespero do setor industrial de manufaturas que sofreu perdas de mais de 31%. Pelo andar da carruagem, o presidente pendura mais essa conta “Olimpíada” no pré-sal apesar de, até onde sei, mais de seis poços perfurados já foram considerados secos, ou seja, são inviáveis comercialmente. Quer saber presidente, atolado, atolado e meio. Mete as caras.


Raphael Curvo é jornalista, advogado pela PUC-Rio e pós-graduado pela Cândido Mendes-RJ – Fonte: A Gazeta

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