revolução

>Raia no horizonte a revolução dos pelegos

Posted on fevereiro 24, 2010. Filed under: entrevista de Lula, Estadão, Horizonte, pelegos, PT, revolução, Show |

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Arnaldo Jabor

Lula deu um show de bola na entrevista ao “Estadão”. Show de bola e com duas frases sinceras e corajosas: “se eu tivesse ganho a eleição em 89, com a cabeça que eu tinha na época ou teria de fazer uma revolução ou caia no dia seguinte…” A outra frase foi sobre o programa do PT que estava saindo do forno: “No congresso do PT aparecem mais de 20 teses. É como uma feira de produtos ideológicos as pessoas compram e vendem o que querem”. Brilhante entrevista…(Muitos idiotas acham que minha missão na vida é criticar o Lula. Mas eu sou livre para elogiar também)

Claro que a entrevista serve para amenizar o chorrilho de burrices e alucinações que o programa do PT nos jogou em cima. Mas, prova que, alem de ter mantido a política econômica de FHC (Lula aprendeu muito com seu ídolo intelectual…)seu outro mérito foi impedir a loucura dos bolchevistas e jacobinos de plantão.

Mas, se Dilma for eleita, teremos saudades de Lula. Quem vai mandar no país será o Zé Dirceu (sempre esse homem fatal…) O programa do PT não é apenas assustador como futuro para um Brasil moderno; é prova de que cabeça de comuna não muda. Nada do que se passou nos últimos 20 anos foi assimilado por esta gente. Estão ali todos os erros passados que cismam em instalar.

Sei do que falo. Conheci pessoalmente muitos comunas de hoje.

Eu devo ter assistido a umas mil horas de reuniões de esquerda em minha vida. Fui comunista de carteirinha no PCB, de onde saí para um grupo “independente”, mais moderno, cognominado, claro, pelos velhos “pecebões” de pequeno-burguês e “revisionista”.

E confesso que tenho ate saudades das noites de meus vinte anos românticos. Fumávamos muito, sérios, mal vestidos, “duros”, planejando instalar o socialismo no país, sem armas, sem apoio sindical ou militar, tudo na base do desejo. Ninguém precisava estudar, pois a verdade estava do nosso lado. A ideologia mecânica justifica a ignorância. Para nós, até a morte era pequena, como nos ensinava o camarada Jacques, supervisor de nossa “base”: “O marxismo supera a morte, pois uma vez dissolvido no social, o indivíduo perde a ilusão de existir como pessoa. Ele só existe como espécie. E não morre!”. E eu, marxista feliz, sonhava com a vida eterna…

Eu olhava meus companheiros e pensava: “Como vamos conquistar o poder fumando “mata-ratos”, reunidos nesse quarto-e-sala imundo? Como vamos dominar o Brasil sem uma reles “beretta “?” Mas, ficava quieto, com medo de ser chamado de “vacilante”.

Era delicioso sentir-se importante, era bom conspirar contra tudo, desde o papai “reaça” até a expulsão do imperialismo ianque. Tudo nos parecia claro, os oradores “surfavam ” em ondas ideológicas com meia duzia de palavras-chave sobre a tal “realidade brasileira”: burguesia nacional, imperialismo, latifúndio, proletariado, campesinato, etc. Nossa tarefa de comunistas era nos infiltrar em todos os “nichos da sociedade” para, de dentro, conquistar o poder socialista. Tínhamos de nos infiltrar em sindicatos, academias, universidades, e – coisa que me deprimia especialmente – em “associações de bairro”, onde eu me via doutrinando donas-de-casa da Tijuca sobre as virtudes do marxismo.

Exatamente como este híbrido governo Lula/PT está fazendo hoje empregando (infiltrando) milhares de companheiros aguerridos e “puros” no aparelho do Estado.

Parecia-nos perfeito o diagnóstico sobre o Brasil – os argumentos iam se organizando “dialeticamente” enquanto a madrugada embranquecia. Até que chegava a hora fatal: “O que fazer?” E aí…ninguém sabia nada. Discutíamos infinitamente para chegar a uma certeza da qual partíamos. Esse é o drama das ideologias: chegar a uma conclusão que já existe desde o inicio.

E aí, pintava o desespero. As acusações mútuas cresciam, com os xingamentos previstos na cartilha marxista: hesitantes ou radicais, ou sectários ou alienados ou provocadores ou obreiristas ou liberais ou o diabo-a-quatro . E eu, do meu canto neurótico, pensava: “Não ocorre a ninguém que há invejosos, ignorantes, mentirosos, ciumentos, paranóicos, babacas e, simplesmente, os “f.d.p”s? Por que ninguém via o obvio?

E hoje, com este programa do PT, vemos que a tribo dos “puros”, a plêiade dos “iluminados” de Lenine, aqueles que se sentem “acima” de todos nós (nós – os burgueses neoliberais de direita), está com chance de finalmente fazer o que Lula conseguiu adiar. Não se trata mais da revolução da “justiça”, como eles achavam que pensavam durante a guerra fria. Agora eles partiram para uma outra fria guerra, uma guerra calculista e esperta, oculta pelos chavões dos anos 50. Vamos traduzir o que nos dita o programa do PT, recém aprovado sob a pelos mentores do “mensalão”, que eles chamam de “tentativa de golpe da direita”.

Quando o programa do PT diz: “combater o monopólio dos meios eletrônicos de informação, cultura e entretenimento”, leia-se, como o velho Marco Aurélio Garcia deixou escapar: “eliminar o esterco da cultura internacional e controlar a mídia”. Eles têm o sonho de uma grande TV Brasil dominando tudo. Quando falam em “atualizar índices de produtividade no campo”, leia-se “dar força e impunidade ao MST nas invasões e ferrar a agroindustria”. Quando falam em “apoio incondicional ao Programa Nacional de direitos humanos”, leia-se “fazer caber nas abstratas generalizações do texto, todas as formas de controle social pelo Estado”.

Claro que os malandros mais pragmáticos do PT divulgam que o programa é apenas para dar pasto, para a ala mais radical do partido… Mentira…

Estão esperando a revolução. Só que é uma revolução para eles mesmos, que se consideram o povo. Dentro do Estado já há 200 mil contratados desde que o Lula tomou posse. O gasto com folha de pagamentos dobrou, de 2002 até hoje. O programa do PT não é para atemorizar tucanos. É um plano de guerra. Essa gente não larga o osso. Eles odeiam a democracia e se consideram os “sujeitos”, os agentes heróicos da Historia. Nós somos, como eles chamam, a “massa atrasada”.  Fonte: A Gazeta
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>A grande revolução das banalidades.

Posted on fevereiro 10, 2010. Filed under: Arnaldo Jabor, banalidades, revolução |

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No início dos anos 60, como a política real era chata e dava muito trabalho (porta de fabrica, panfletos e, depois, coragem para morrer), nós, artistas “revolucionários” transferimos para a “Cultura” – com “c” maiúsculo – nosso sonho de mudança histórica. Iludíamo-nos com isso; o Brasil ia ser “salvo” por nós, em uma espécie de amanhecer iluminista. O presente era duro, mas o subdesenvolvimento nos santificava; nossa pobreza era uma forma de “superioridade” franciscana, mais autêntica que os “falsos” problemas europeus, tais como a angústia do pós-guerra.

Dizíamos: “a angustia diante do absurdo é frescura de rico”. A estética da fome nos enobrecia; a fome dos outros, claro.


O subdesenvolvimento era nossa única riqueza. O mundo era dividido em “centro” versus “periferia”, numa espécie de bem e mal geográficos. Sentíamo-nos como mártires enfrentando o Leão da “Metro”.


Usávamos essa divisão entre “colônia” e “metrópole” como pretexto para nos absolver e camuflar as doenças hereditárias de nossa formação, tais com: a cordialidade corrupta , o escravismo na alma , a falsa democracia, todos os vícios de uma formação patrimonialista ficavam perdoados por nossa condição de “vítimas dos americanos”.


Achávamos até “bonitinha” nossa incompetência um charme mestiço; achávamos a “doce” esculhambação brasileira, quase uma forma de “originalidade” – uma poética da precariedade. O desrespeito à coisa pública era visto como atos da nossa simpática tribo de “Macunaímas”, contra a caretice “organizada” dos países desenvolvidos – “os grandes culpados “.


Falava-se de “revolução” como de Papai Noel. Não havia futuro algum para aquele janguismo mágico, coroado por frases bombásticas de Darcy Ribeiro, mas mesmo assim, achávamos que ia rolar um socialismo dançante sem sangue, sem esforço, uma revolução doce e fácil “feita pelo Governo” (até para a subversão dependíamos do Estado…). Poucos nomes nos foram tão apropriados como “esquerda festiva”.


A ditadura veio como uma inevitável porrada histórica. Mas, mesmo durante a ditadura, os mais burros persistiram em seu destino de “vítimas santificadas” do imperialismo, agora confirmado pela “realidade objetiva”. Falo de artistas e “nerds”, porque na luta direta houve vários heróis suicidas.


Outros artistas e intelectuais aprenderam com a desgraça de 64, descobriram que o buraco é mais em cima e que não estávamos preparados para a tal “revolução mágica”.


Já tínhamos tido, é verdade, varias cepas de cultura : a antropofagia de Oswald, tínhamos tido o concretismo e seu fecundo formalismo influenciando uma estética mais ambígua no Cinema Novo e no Tropicalismo. Esses movimentos relativizaram as certezas nacional-populistas. Glauber , Caetano e Gil previram a globalização da economia. Mas, mesmo com esquematismos de um lado e complexidades de outro, a cultura brasileira continuou com um forte élan finalista, com um porto ao longe, um paraíso ao fim da linha.


Ou seja, entre “esquemáticos” e “complexos”, entre “dependentes” à Cebrap ou “onipotentes” à ISEB, continuávamos a cultivar um projeto de país, com um sebastianismo denegado. “Nova esquerda” ou “velha esquerda”, tínhamos um encontro marcado com o futuro para nosso Estado-Nação. Cultura precisa de esperança, mesmo se vã.


Agora, o trauma da globalização foi mais terrível para artistas e intelectuais esperançosos, do que a ditadura de 64.


A ilusão de “futuro cultural” compensava nossa impotência política; agora, nem mais isso. Tiraram-nos a doce ilusão de “controle” da História e da “evolução dialética”.


Estamos passando por um túnel de lixo, talvez a parte suja de uma “destruição criadora”. A dor para mim e minha geração de artistas é imensa, pois queríamos construir a utopia luxuosa de um país maravilhoso.


De repente, nos vimos com uma nação sem futuro claro e com um enorme presente de trilhões de informações banais. Começou a grande tempestade de conceitos sem rumo nos twitters e facebooks. A transcendência bateu as asas; ficamos apenas com o dia-a-dia; ficamos “vazios” como os americanos que trabalham como formigas e cuja única utopia é o mercado e a aposentadoria. A “macdonaldização” do mundo nos tirou o charme de atores de um processo, mesmo como vitimas “exploradas”. Hoje viramos fregueses de um mercado. E com a massificação geral do audiovisual, com a invasão de bagulhos culturais, com o acesso da ignorância aos media, estamos assistindo à vitória da verdadeira cultura brasileira: o triunfo do analfabetismo democrático.


A sordidez nacional que a democracia exibe (na política e na cultura) ao mesmo tempo nos anestesia e nos desperta (oh…contradição…) O Brasil está mais louco, mais vulgar, mais nu, mas também muito mais interessante do que há quarenta anos, até porque, mesmo ignorantes, estamos mais conscientes de nossa própria chanchada. Mergulhamos nas irrelevâncias em busca de alguma resposta.


No entanto, escrevendo isso, tive um estalo: há uma nova transcendência sob esta bandalheira, uma totalidade feita de irrelevâncias. A democracia nos trouxe uma revolução de rica vulgaridade . Temos a democratização de uma cultura de baixo consumo, um feio carnaval que não sabemos ainda como criticar, a não ser como “brega”, de nariz torcido. E temos de dormir com pagodes desses…


A verdade irônica é que nunca tivemos tanta produção cultural, de baixa extração (hélas!…), com uma euforia cretina, brutal, mas autêntica. Há uma grande “vitalidade-axé” neste cafajestismo cultural. Não sei em que isso vai dar, mas o futuro chegou: sujo, grosso, mas chegou. O povo se expressa, sem dirigismo nem utopias, no pleno exercício de sua sagrada ignorância. Apesar de eu estar com os cabelos em pé, no meu horror de “utópico deprimido”, estamos vivendo uma verdadeira revolução cultural. Como Orwell escreveu na ultima frase de “1984”: “Finalmente, ele amava o Big Brother…” Eu também. Fonte: A Gazeta


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