Ricardo Noblat

>Zé tinha razão

Posted on janeiro 10, 2011. Filed under: Casa Civil, Ricardo Noblat |

>Por Ricardo Noblat

Por ora, tudo indica que Zé tinha razão. O Zé, aí, é José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil do primeiro governo Lula. Em setembro último, durante palestra em Salvador para cerca de 100 sindicalistas, ele profetizou: “A eleição de Dilma é mais importante do que a de Lula porque é a eleição do projeto político. Porque Dilma nos representa”.
José Dirceu
Não ficou só nisso. Sucedido na Casa Civil pela “querida companheira de armas”, Dirceu ainda ensinou aos sindicalistas: “Se queremos aprofundar as mudanças, temos que cuidar do partido, da organização popular. Temos que cuidar da consciência política. Temos de fazer a reforma política e nos transformar em maioria.”
Lula recusou-se a pagar o preço pedido pelo PMDB para governar junto com ele entre 2003 e 2006. Aí estourou o escândalo do mensalão. De 2007 a 2010, Lula pagou o preço entregando ao PMDB seis ministérios e centenas de cargos. Aí governou mais ou menos em paz e ainda conseguiu fazer o seu sucessor. O PT não gostou nem um pouco.
Agora, está gostando. “Vamos perdendo de goleada até aqui”, choraminga uma cabeça coroada do PMDB. “O PT faz conosco o que o PSDB imaginou fazer no início do governo de Fernando Henrique e depois desistiu”. No primeiro semestre de 1995, Sérgio Motta, então ministro das Comunicações, tomou uns tragos a mais e desabafou:
– Vamos comer o PMDB pelas bordas. Nosso projeto de poder é de 20 anos.
O do ex-presidente Fernando Collor era também de 20 anos. Acabou em três. O do PT é de mais de 20. Oito já se passaram com Lula. Dilma tem quatro pela frente. Poderá ter mais quatro. Ou então se convoca logo Lula e ele garante pelo menos mais oito. Até lá, o PT terá tido tempo suficiente para suceder o PMDB como o maior partido do país.
É o que está nas pranchetas de quem conduz os destinos do PT. Resta combinar com os brasileiros e o destino. Dilma parece fazer muito bem o que lhe cabe. Reduziu o número de ministérios do PMDB de seis para quatro. Deu 17 para o PT. Extraiu dos quatro do PMDB as fatias, digamos assim, mais suculentas. Endinheiradas pronto, disse.
O mais notável gesto de hostilidade ao PMDB foi protagonizado por Fernando Bezerra Coelho, do PSB, que assumiu o ministério da Integração Nacional avisando em voz alta a quem interessar possa: “Recebi ordens para tirar daqui gente ligada ao PMDB e ao ex-ministro Geddel Vieira Lima”. Geddel preferiu se fingir de surdo.
O PMDB está atordoado essa é que é a verdade. O PT ocupa todos os espaços possíveis no primeiro e no segundo escalões do governo – e é ele, o PMDB, no entanto, quem fica com a fama de fisiológico, inimigo número um da moral e dos bons costumes na administração pública. Não é justo, convenhamos. E os outros? Cadê?
Para sair das cordas, o PMDB só terá mesmo um jeito: aprontar em breve alguma surpresa desagradável para a nova presidente. É o que está sendo amadurecido.
Sabor de pizza
Exatas 25 pessoas protestaram no último sábado defronte da embaixada do Brasil, em Roma, contra a concessão de refúgio ao ex-terrorista italiano Cesare Battisti. O assunto esfriou nos jornais. Giorgio Napolitano, 85 anos, o presidente da Itália, disse que seu país falhou ao não explicar direito a países amigos a natureza da sua política antiterror. O Caso Battisti deverá provocar algum barulho no Congresso. E ir parar na Corte de Haia se o Supremo Tribunal Federal confirmar a decisão de Lula favorável ao refúgio. Mas é só. A Itália assinou um acordo de sete bilhões de euros para construir navios destinados à Marinha brasileira. Sabe como é…

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>A via Dilma

Posted on novembro 1, 2010. Filed under: autonomia, Dilma Rousseff, Lula, PAC, petróleo, presidente da República, Ricardo Noblat |

>Por Ricardo Noblat

Façam suas apostas, senhores: Dilma Rousseff esquentará a cadeira de presidente da República só para tentar devolvê-la a Lula daqui a quatro anos? Ou governará com o legítimo propósito de se reeleger? No primeiro caso, continuará tutelada por quem de fato a elegeu. Cumprirá uma missão que lhe foi dada. No segundo, governará com autonomia.
Dilma comportou-se como uma boneca durante a campanha no primeiro e no segundo turnos. Nada disse e nada fez que contrariasse Lula, seus mais ostensivos conselheiros políticos designados por ele (José Eduardo Dutra, presidente do PT, e Antônio Palocci, ex-ministro da Fazenda) e o responsável pelo marketing da campanha.
Compreensível. Dilma jamais disputara uma eleição. Jamais sonhara em ser candidata a presidente da República. Carecia de experiência. Foi uma aluna aplicada. E seria injusto não reconhecer que em vários momentos ela até surpreendeu positivamente os que a levavam pela mão.
Somente Lula e Dilma é que sabem qual foi a base do acerto feito entre eles. Em conversa informal com um grupo de jornalistas durante a campanha, o ex-marido de Dilma fez questão de sublinhar mais de uma vez: “Ela é de uma fidelidade canina a Lula. Jamais o trairá”. Os poucos políticos que a conhecem bem assinam embaixo.
Dilma é mandona. Tem idéias próprias. É dada a explosões de raiva. Não se constrange em tratar mal seus subordinados. A luta armada contra a ditadura militar de 1964 endureceu-lhe o espírito. Para sobreviver, ela não poderia falhar nem admitir que os outros falhassem. Respeito à hierarquia e disciplina são traços característicos dela.
É visível o desconforto de Lula com a proximidade do fim do seu mandato. Ele não esconde isso de ninguém. Escondeu que ao se reeleger em 2006 passou a acalentar o projeto de mudar a Constituição para concorrer a um terceiro mandato consecutivo. Sondou auxiliares e governadores a respeito. Não encontrou apoio como esperava.
O terceiro mandato consecutivo tinha duas contraindicações. A primeira: dividiria o país e custaria um bom pedaço da popularidade de Lula. O Congresso poderia aprová-lo, mas o Supremo Tribunal Federal talvez não. A segunda contraindicação: ele poria em risco a ambiciosa ideia do PT de governar por 20 anos no mínimo.
Para que a ideia vingue seria necessário que entre Lula de 2002 a 2010 e Lula de 2014 a 2022 assumisse o cargo uma pessoa de confiança do PT e de Lula, agradecida por chegar à Presidência e conformada em só governar por um mandato. A não ser que Lula mais adiante desista ou não possa voltar ao poder. Desistir é improvável.
Ao falar de Dilma, é tentador lembrar o general Eurico Gaspar Dutra, o 16 presidente da República do Brasil. Dutra foi ministro da Guerra de Getúlio Vargas, e também o líder do golpe militar que em 1945 derrubou Getúlio, ditador desde 1930. Em seguida, Dutra foi eleito presidente com o apoio de Getúlio.
Uma frase massificada pela campanha de Dutra ficou famosa e rendeu-lhe muitos votos: “Ele disse: Vote em Dutra”. No caso, “ele” era Getúlio. Dutra governou um país em boa situação financeira – como Dilma governará. Tinha seu Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) – o Plano Salte (Saúde, Alimentação, Transporte e Energia).
Era um desenvolvimentista como Dilma. O Estatuto do Petróleo foi elaborado no seu governo. A partir do Estatuto, o país começou a construir suas primeiras refinarias e a adquirir seus primeiros navios petroleiros. Dutra pensou em angariar popularidade quando o Brasil sediou a Copa do Mundo de 1950. O campeão foi o Uruguai.
Outra frase de Getúlio marcou o final do governo Dutra: “Ele voltará”. No caso, “ele” era o próprio Getúlio, que sucedeu Dutra e governou entre 1951 e 1954. Mas essa é outra história. Hoje, Dutra é mais conhecido como nome de estrada – a que liga Rio a São Paulo inaugurada durante seu governo. Boa sorte, presidente Dilma!

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>Popular, sim. Grande, não!

Posted on outubro 25, 2010. Filed under: Constituição, Dilma, José Serra, Lula, militantes do PT, Popular, Ricardo Noblat |

>Por Ricardo Noblat

“Política a gente não pode fazer com ódio, com agressão, mas ninguém agüenta
mentira!” (Lula, sobre a agressão a Serra)

Bolinha de papel, rolo de fita crepe, pano de bandeira, chumaço de algodão – nada pode ser usado de forma hostil para atingir alguém sob pena de tal ato configurar uma agressão. O que militantes do PT foram fazer em Campo Grande, no Rio, quando o candidato José Serra (PSDB) esteve por lá na tarde da última quarta-feira em busca de votos?

 Luiz Inácio Lula da Silva, Presidente da República do Brasil
Não foram saudá-lo democraticamente. A tal ponto de civilidade não chegaremos tão cedo. Aos berros, munidos de bandeiras e dispostos a tudo, tentaram impedir que o candidato e seus correligionários exercessem o direito de ir e de vir, e também o de se manifestar, ambos assegurados pela Constituição. O PT tem uma longa e suja folha corrida marcada por esse tipo de comportamento violento, autoritário e reprovável, que deita sólidas raízes em suas origens sindicais.
A força bruta foi empregada muitas vezes para garantir a ocupação ou o esvaziamento de fábricas. E também para se contrapor à força bruta aplicada pelo regime militar na época em que o PT era apenas uma generosa idéia. Para chegar ao poder, o PT sentiu-se obrigado a ficar parecido com os demais partidos para o bem ou para o mal. Mas parte de sua militância e dos seus líderes não abdicou até hoje de métodos e de práticas que forjaram sua personalidade. É uma pena. E um sinal de atraso.
Uma vez no poder, vale tudo para permanecer ali. Vale o presidente da República escolher sozinho a candidata do seu partido. Vale ignorar a Constituição e deflagrar a campanha antes da data prevista. Vale debochar da Justiça. Vale socorrer-se sem pudor da máquina pública para fins que contrariam as leis. Vale intimidar a Polícia Federal para que retarde investigações que possam lhe causar embaraços. E vale orientá-la para que vaze informações manipuladas capazes de provocar danos pesados a adversários.
No ocaso do primeiro turno, pouco antes de Dilma se enrolar na bandeira nacional e posar para a capa de uma revista como presidente eleita, a soberba de Lula extrapolou todos os limites. Ele foi a Juiz de Fora e advertiu os mineiros: seria melhor para eles elegerem um governador do mesmo grupo político de Dilma. Foi a Santa Catarina e pregou irado a pura e simples extirpação do DEM. Foi a São Paulo, investiu contra a imprensa e proclamou com os olhos injetados: “A opinião pública somos nós”.
O mais sabujo dos auxiliares de Lula reconhece sob o anonimato que o ataque de fúria do seu chefe contribuiu para forçar a realização do segundo turno. Não haverá terceiro turno. Se desta vez as pesquisas estiverem menos erradas, Dilma deverá se eleger no próximo domingo e até com uma certa folga. Mas a eleição ainda não acabou meus senhores. A história está repleta de casos onde um passo em falso, um gesto impensado ou uma surpresa põe tudo a perder.
O que disse Lula a respeito do episódio do Rio protagonizado por Serra e por militantes do PT só confirma uma vez mais o quanto ele é menor – muito menor – do que a cadeira que ocupa há quase oito anos. Lula foi sarcástico quando deveria ter sido solidário com Serra, de resto seu amigo de longa data. Foi tolerante e cúmplice da desordem quando deveria tê-la condenado com veemência. Foi cabo eleitoral de Dilma quando deveria ter sido presidente da República no exercício pleno da função.
Sua popularidade poderá seguir batendo novos recordes -e daí? Não é disso que se trata. Popularidade é uma coisa passageira. Grandeza, não. É algo perene. Que sobrevive à morte de quem a ostentou. Tiririca é popular. Nem por isso deve passar à História como um político de grandeza. No seu tempo, Fernando Collor e José Sarney, aliados de Lula, desfrutaram de curtos períodos de intensa popularidade. Tancredo Neves foi grande, popular, não.
Grandeza tem a ver com caráter, nobreza de ânimo, sentimento, generosidade. Tudo o que falta a Lula desde que decidiu eleger Dilma a qualquer preço.

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>Uma e outra coisa

Posted on outubro 19, 2010. Filed under: descriminalização do aborto, Justiça, mensalão, milionário, PT, Ricardo Noblat, SUS, violência sexual |

>

Por Ricardo Noblat*
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, observou com sabedoria o deputado José Genoino, na época presidente do PT e empenhado em negar a existência do mensalão. Esqueceu ou só lembra vagamente do que se trata? Mensalão foi o esquema milionário de pagamento de propinas a deputados para aprovação na Câmara de projetos do governo.
Usar dinheiro suspeito para comprar consciências seria uma coisa abominável, vil, incabível, muito além dos limites da irresponsabilidade do PT. Outra coisa seria usar dinheiro não contabilizado ou não declarado à Justiça para financiar despesas de campanha do PT e de partidos aliados.
Orientado por Márcio Thomaz Bastos, seu ministro da Justiça, Lula foi curto e grosso ao resumir o assunto. Não houve mensalão, ponto. Tudo não passou de Caixa 2 de campanha. Aleluia, irmão! Mensalão seria crime. Caixa 2 também é crime. Mas um crime corriqueiro praticado por todos os partidos, segundo Lula. De acordo? Em frente.
Uma coisa é Dilma ter dito que é a favor da descriminalização do aborto. Outra coisa é Serra, como ministro da Saúde, ter mandado o Sistema Unificado de Saúde (SUS) atender às mulheres vítimas de estupro e decididas a abortar como permite a lei. De acordo? O ministro que antecedeu Serra no cargo se recusou a dar a ordem ao SUS.
Por que? Porque era contra o aborto mesmo nos casos previstos em lei – violência sexual e gravidez com risco de morte para a mãe. Serra não estava obrigado a proceder de maneira diferente. Mas sensível à tragédia das mulheres que, tendo o direito a abortar, não dispunham de meios seguros para fazê-lo, orientou o SUS a socorrê-las.
Fez bem. Revelou-se um administrador humano. O Estado brasileiro é laico. Seu comportamento independe de doutrinas religiosas. Na época, Serra poderia ter dito que era contra a descriminalização do aborto. E acrescentado que só agia daquela forma para ser coerente com a lei e tirá-la do papel. Não disse. Por quê?
Porque em consciência era – como continua sendo – favorável ao direito da mulher de somente ser mãe na hora que quiser. Esse, por sinal, era um dos muitos pontos que aproximavam o pensamento de Serra do pensamento da socióloga Ruth Cardoso, amiga dele e mulher do então presidente Fernando Henrique Cardoso.
É leviano atribuir a Serra a condição de mentor da campanha que apresenta Dilma como assassina de criancinhas. Não é leviano, porém, acusá-lo de surfar na campanha tocada por eleitores seus na internet e por pastores e bispos em igrejas. Com todas as letras, a mulher de Serra chamou Dilma de assassina de criancinhas. Ele a desautorizou? Não.
Sempre que pode ou que lhe perguntam, Serra afirma ser contra o aborto. Não perde a chance de retocar o perfil de um homem religioso. No debate com Dilma promovido pela Band no último dia 10, disse ser contra o aborto “até por uma questão pessoal”. Não lhe perguntaram que questão era essa. A frase ficou boiando no ar.
Uma coisa é ser contra o aborto. Outra é ser a favor da sua descriminalização. Todos são contra o aborto – até mesmo as mulheres que um dia abortaram. Descriminalização tem a ver com não ir para a cadeia. Em grande parte do mundo, nenhuma mulher está sujeita à prisão por ter abortado. Serra não precisa acelerar seu raciocínio para entender isso.
Dá um show de cinismo quando mistura uma coisa com a outra ou quando finge ser contra o que nunca foi. O show atinge o seu clímax quanto beija imagens de santos e até comunga. Para comungar, um católico deve ter-se confessado recentemente. Data de quando a última vez que Serra se ajoelhou diante de um padre e confessou suas culpas?
Mensalão não é Caixa 2. A Justiça aceitou a denúncia contra 40 integrantes da “organização” que tentou se apoderar do aparelho do Estado. A posição de Serra sobre o aborto é igual a de Dilma. O acerto de Serra, se ele tiver sorte, será com a Justiça divina.

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>Droga de campanha

Posted on setembro 27, 2010. Filed under: campanha, debate, democracia, Dilma, droga, eleições 2010, Futuro, Lula, Marina, Meio Ambiente, Ricardo Noblat, Serra |

>Por Ricardo Noblat

“A democracia é exatamente isto: cada um fala o que quer, escreve o que quer, e o povo faz o grande julgamento”. (Lula)

Eleições 2010 – Droga de campanha, esta. Fora do controle do seu marqueteiro, Dilma revelou-se incapaz de dissertar sobre qualquer coisa com começo, meio e fim. A racionalidade excessiva de Serra embotou todo tipo de emoção que ele pudesse transmitir. Marina arrancou lágrimas de empresários em pequenas auditórios, mas saiu-se mal nos debates de televisão.

Alguém sabe citar de cor as principais promessas feitas pelos candidatos? Lembro das seis mil creches e das não sei quantas Unidades de Pronto Atendimento de Dilma; do salário mínimo de R$ 600,00 e do reajuste dos aposentados de Serra; e do “governar com os melhores” de Marina. Em suma: promessas pontuais ou genéricas.

Um projeto para o país? Algo ambicioso, mas necessário para quem se preocupa com o futuro? Os candidatos ficaram devendo. Ou porque não têm projeto. Ou porque acham que projeto não atrai votos. Dilma fala em dar continuidade ao governo Lula. Serra diz que o Brasil pode mais. Marina atesta: é possível crescer respeitando o meio ambiente.

Dilma mimetizou Lula de tal maneira que usou em várias ocasiões expressões que são dele. Deu com o rosto na porta quem imaginou que o governo de Lula foi de Lula. Não foi. Foi de Lula e de Dilma, a se acreditar na propaganda bem cuidada da candidata. Os dois governaram juntos o país nos últimos sete anos e poucos meses.
Serra mimetizou Serra de tal forma que deu a impressão de estar de volta a 2002 quando era ministro da Saúde. Ou quando era candidato a presidente da República recém-saído do Ministério da Saúde. Marina não mimetizou ninguém. Apenas pareceu esquecida de que trocou o PT por outro partido. Perderá feio no Acre porque lá ela ainda é PT.
E o confronto de idéias entre os candidatos? Não houve. Dilma fugiu da maioria dos debates. E as regras dos debates impediram o confronto tão desejável. Votará em Dilma quem gostaria de votar em Lula e não se incomoda em lhe passar um cheque em branco. Em Serra, quem não vota em Lula e no PT de jeito nenhum. E em Marina, os sonhadores.
Na ausência de idéias e de debates, as pesquisas de intenção de voto pautaram o comportamento dos candidatos, ocuparam generoso espaço na mídia e serviram para animar discussões exacerbadas na internet. Os responsáveis pelos institutos de pesquisas ganharam uma importância que não tiveram em eleições anteriores.
Montenegro, do Ibope, previu a eleição de Serra com mais de um ano de antecedência. Foi obrigado mais recentemente a pedir desculpas pelo seu erro. O sempre discreto Marcos Coimbra, do Vox Populi, escreveu artigos semanais para jornais, revistas e blogs explicando por que Dilma deverá se eleger no primeiro turno.
É, de fato, o que por ora está escrito nas estrelas – a eleição de Dilma no próximo domingo. José Roberto Toledo, analista de pesquisas do jornal O Estado de S. Paulo, observa que o contingente de eleitores indecisos está perto de se esgotar como fator de crescimento dos candidatos Serra e Marina.
Para que haja segundo turno, a estarem certas as pesquisas, é preciso que Serra e Marina tomem eleitores de Dilma. Não será uma tarefa fácil, adverte Toledo. Dilma tem algo como 10 milhões de votos a mais do que Serra e Marina somados. Do último sábado até o dia da eleição, Serra e Marina teriam de subtrair de Dilma 625 mil votos por dia.
Só um fato devastador para a reputação de Lula poderia provocar uma migração de votos tão grande e tão rápida. Mesmo assim, o PT receia a convergência de causas mais prosaicas – entre elas, uma abstenção elevada no Norte e Nordeste e a regra que só permite o voto dos que exibam o título de eleitor e outro documento de identificação.
É razoável a aflição do PT. Faltam apenas seis dias para que Lula consiga por meio de Dilma o que não foi possível em 2002 e 2006 – a eleição no primeiro turno. Em seis dias tudo pode acontecer – inclusive nada. O mais provável é que nada aconteça.

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>"Vem por aqui"

Posted on setembro 20, 2010. Filed under: cafezinho, cansaços, Eleição, florestas, história, ironias, olhos, Ricardo Noblat |

>Por Ricardo Noblat
– dizem-me alguns com olhos doces,

stendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom se eu os ouvisse

Quando me dizem: “vem por aqui”!

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,

Por que me repetis: “vem por aqui”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós

Que me dareis machados, ferramentas, e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?…

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátrias, tendes tetos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.

Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: “vem por aqui”!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou…

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou,

— Sei que não vou por aí.

(Tomado emprestado de José Maria dos Reis Pereira, José Régio, poeta português do início do século passado. O nome do poema é Cântico Negro. Eu o ouvi pela primeira vez declamado por Paulo Autran em 1965.)

Olha a soberba, Dilma! Isso é lá jeito de se tratar um senador? Álvaro Dias (PSDB-PR) sugeriu que o Congresso a convidasse para falar sobre malfeitos ocorridos na Casa Civil. A senhora poderia ter calado a respeito. Ou simplesmente ter dito que o convite não passava de uma jogada eleitoral do senador o que de fato é. Mas daí a afirmar que, partindo dele, a senhora não aceitaria nem convite para cafezinho? Como imagina governar sem tomar cafezinho com aliados e adversários?

Só uma vez na história de Pernambuco, um governador foi eleito sem eleger seus dois candidatos ao Senado. Aconteceu com Miguel Arraes em 1994. Armando Monteiro Filho (PDT), que fazia parte da chapa dele, foi derrotado por Carlos Wilson (PSDB). Eduardo Campos (PSB), neto de Arraes, será reeleito governador com mais de 50 pontos de vantagem sobre Jarbas Vasconcelos (PMDB). E elegerá senador Armando Monteiro Neto (PTB). Pela primeira vez, Marco Maciel (DEM) perderá uma eleição.

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>Errei. Perdão

Posted on setembro 6, 2010. Filed under: Dilma Roussef, Eleição, Polícia Federal, quebra do sigilo, Receita Federal, Ricardo Noblat, transparência |

>Por Ricardo Noblat*

Na última sexta-feira de manhã, ao gravar comentário para o site deste jornal, eu disse que o governo fora lerdo, irresponsável e incompetente no trato da violação do sigilo fiscal de Verônica Serra. Podendo, lá atrás, abortar o escândalo, não o fez. Mea culpa! O certo seria ter dito simplesmente que o governo preferiu esconder o caso.
No dia 20 de agosto último, o secretário da Receita Federal foi informado sobre a quebra do sigilo de Verônica. Perguntei no comentário: O que você teria feito no lugar dele? E disse como teria agido para evitar a eclosão de um escândalo capaz de embaraçar o governo, assustar o seu partido e manchar a provável eleição de Dilma Roussef.
Eu encomendaria de imediato uma cópia da procuração assinada por Verônica, e que permitira ao procurador dela acessar suas declarações de imposto de renda de 2007 a 2009. Consta da procuração o nome do cartório onde fora reconhecida a firma. Passo seguinte: telefona aí para o cartório e vê se Verônica tem firma por lá.
Descobriria que ela jamais teve. Logo, a procuração era falsa. Em seguida, destacaria um assessor para reunir as informações disponíveis nos arquivos do Receita sobre o falso procurador Antônio Carlos Telles. Estava lá: no passado, ele chegara a operar com cinco CPFs ao mesmo tempo. Era processado em vários Estados.
A oposição celebraria se soubesse do caso antes de o governo se mexer. Quebra de sigilo fiscal é crime. Quebra de sigilo fiscal da filha do candidato da oposição à presidência seria um crime, digamos, triplamente qualificado contra ela, o pai e o propósito do governo de eleger Dilma. Então levaria o assunto ao conhecimento do meu superior o ministro da Fazenda.
Nada mais razoável que ele conversasse com o presidente a respeito. E que o presidente, um sujeito esperto, dotado de rara sensibilidade política, reagisse assim: telefonem para Serra. Oi, Serra, acabei de saber que violaram o sigilo fiscal da Verônica. Pois é, sei… Eu lembro que você tinha me alertado para essa possibilidade. Mas já tomei providências.
E enumeraria todas: chamei o ministro da Justiça. Ele acionou a Polícia Federal, que abriu inquérito. Espero esclarecer tudo em curto prazo. O ministro da Comunicação Social dará uma entrevista coletiva daqui a pouco. E eu soltarei uma nota condenando com veemência o que ocorreu. Somos adversários, mas jamais jogaria sujo.
Concordam que agindo dessa forma o governo se sairia bem? E que a oposição talvez se visse forçada até a elogiá-lo pela rapidez e transparência? Foi o que imaginei na sexta-feira de manhã. Mas aí, à noite, o Jornal Nacional revelou que o falso procurador de Verônica fora filiado ao PT entre 2003 e 2009. E que cometera o crime ainda na condição de filiado.
Olha aí, gente, formou! O governo escolheu esconder a quebra de sigilo de Verônica. E quando para seu desgosto ela se tornou pública, escolheu mentir ao dizer que Verônica assinara uma procuração, e que era preciso investigar o caso para saber de fato o que acontecera. Se a imprensa tivesse decidido esperar, é bem possível que nada ficasse esclarecido até o dia da eleição.
Pois menos de uma hora antes de sites e de blogs divulgarem que a procuração era falsa e que Antonio Carlos era um homem de cinco CPFs e de passado obscuro, a Receita ainda teimava em vender a história de que existia uma procuração assinada por Verônica. E que o mais sensato seria transferir para a Polícia Federal a tarefa de apurar tudo com o devido rigor e cuidado.
A verdade é que o governo usou a máquina pública no caso, a Receita para proteger sua candidata, o que configura crime eleitoral. E fez uma aposta errada. Não foi lerdo. Nem mesmo incompetente porque poderia ter ganhado a aposta. Foi irresponsável. E, por omissão, palavras e obras, acabou sendo conivente com o que Dilma chamou de malfeito. Um crime malfeito, digo eu.



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>Pai Nosso – Lula toma conta do Brasil com a "Mãe Nossa" e outros tios

Posted on agosto 23, 2010. Filed under: Dilma, José Serra, Lula, Mãe do Brasil, PMDB, PT, Ricardo Noblat |

> Ricardo Noblat
E no sétimo dia, Lula descansou em São Bernardo. E relembrando fatos recentes concluiu que foram muito bons para Dilma, a Mãe do Brasil. No prazo de uma semana, ela saltou em pesquisas do Datafolha de oito pontos de vantagem sobre José Serra para 17. A essa altura, a vantagem passou dos 20 pontos, segundo anunciará o Ibope hoje ou amanhã.

E Lula pensou assim: o que me resta fazer além de cuidar para que Dilma não fale besteiras, o PT e o PMDB não se engalfinhem desde já por conta de cargos no futuro governo, e nenhuma ação aloprada possa pôr em risco a minha obra quase perfeita? Depois de refletir, decidiu: é hora de investir nos Estados para, se possível, reduzir a oposição a pó.

Em eleições passadas, o PT e seus sócios minoritários sempre acenaram com o fantasma de uma “onda vermelha”. Ela varreria o país de uma ponta à outra. Era delírio. Mas não parece delírio que desta vez uma “onda lulista” e multicolorida remova de governos e do Congresso adversários históricos e desafetos pessoais do Grande Líder e do PT. Duvida?

O PSDB perderá o governo do Rio Grande do Sul. Perdeu o da Paraíba quando o governador foi cassado por abuso de poder econômico. Corre o risco de perder o governo de Alagoas. E de não ganhar o do Paraná, onde a vitória de Beto Richa (PSDB) já foi segura. Vencerá em São Paulo e Roraima. Deverá vencer em Goiás. Disputará o segundo turno no Pará.

Deram por falta de Minas Gerais? Lula está convencido de que será barbada a vitória de Hélio Costa (PMDB). Com a ascensão de Dilma no Estado, foi pelo ralo a história de que Lula deixaria para Aécio o governo local em troca de mais votos para sua candidata. Ganhar em Minas vale bem mais do que uma missa. Compensará a provável vitória de Geraldo Alckmin (PSDB) em São Paulo.

O que será de Aécio, que em algum momento nos últimos dois anos jogou com a hipótese de se transferir para o PMDB e de ser aceito por Lula como seu candidato à sucessão presidencial? Caso não eleja Anastasia (PSDB) governador, será um senador fraco. Por estilo, não baterá de frente com o governo. Dividirá seu tempo entre incursões ao Rio e conversas que o ajudem a disputar a vaga de Dilma em 2014.

O apetite de Lula não tem limites. E são muitos os pontos frágeis da oposição. Lula atacará todos eles com a autoridade de quem obteve um terceiro mandato por meio de Dilma. Pará: Lula fará o que puder para garantir a reeleição da governadora Ana Júlia (PT). Amazonas: Lula pedirá votos para derrotar Arthur Virgílio, líder do PSDB no Senado e candidato à reeleição. O governo poderá ficar com o PMDB ou o PR.

Rio Grande do Norte: Lula almeja mais do que os 65% dos votos até aqui prometidos a Dilma. Maior, porém, é seu desejo de derrotar José Agripino Maia, líder do DEM no Senado. Pouco se lhe dá que Rosalba (DEM) se eleja governadora. Ou que Garibaldi Alves (PMDB), aliado de Agripino, volte ao Senado. O alvo é Agripino, que teve o desplante de vencer Lula há dois anos elegendo a prefeita de Natal. Pode?

O Rio de Janeiro está no bolso de Sérgio Cabral (PMDB), aliado de Lula. O de Pernambuco no de Eduardo Campos (PSB), aspirante a candidato a vice-presidente da República quando Lula der o sinal para que ponham de novo o retrato do velho na parede em 2014 ou em 2018. 

Dilma não será um obstáculo nem mesmo se pegar gosto pelo cargo. Pense numa prévia dentro do PT para escolher entre ela e Lula…

Exagero? Olívio Dutra era governador do Rio Grande do Sul e planejava se candidatar à reeleição. Foi atropelado por Tarso Genro, que teve força para promover uma prévia e vencê-la. Tarso perdeu a eleição. Você vê alguém com pinta de que despachará Dilma em 2014? Alckmin abriria mão de mais um mandato de governador? Nem pensar.

É Dilma já. E ela ou Lula depois salvo o imprevisível que, por sua própria natureza, serve para justificar o eventual desastre de qualquer análise

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>Como virar o jogo?

Posted on agosto 16, 2010. Filed under: Como virar o jogo, debate, Dilma Rousseff, Globo, Jornal Nacional, José Serra, Marina Silva, Ricardo Noblat |

>Por Ricardo Noblat

“Quando o Lula da Silva sair é o Zé que eu quero lá”. (verso do novo jingle de campanha de José Serra)

E para deixar José Serra ainda mais aflito, o Jornal Nacional divulgará, hoje, uma nova pesquisa Ibope sobre intenção de votos para presidente da República. Da mais recente pesquisa Datafolha, apontando Dilma Rousseff na frente com oito pontos de vantagem, foi dito que não apurou todos os efeitos da entrevista de Serra no Jornal Nacional.
A pesquisa Ibope apurará, sim. Somente ontem terminou de ser aplicada. Serra foi entrevistado na quarta-feira 11. Saiu-se melhor do que Marina Silva e Dilma, também entrevistadas. Mas se apesar disso o Ibope indicar o aumento da distância entre ele e Dilma? Em seis de agosto, Dilma tinha cinco pontos de vantagem no Ibope.
O único fato político relevante registrado nos últimos 10 dias foi a série de entrevistas dos candidatos nos principais telejornais da Globo. Jamais eles haviam se exibido para tantos milhões de eleitores. O debate promovido pela Band, por exemplo, alcançou três pontos de audiência. A entrevista de Dilma no Jornal Nacional, 33.
O Datafolha cravou que Dilma subiu cinco pontos e Serra caiu quatro. Se o Ibope mostrar Dilma crescendo e Serra em queda, é razoável concluir que a superexposição de Serra nos telejornais da Globo acabou por lhe fazer mal muito mal. Resta saber por que. E por que apesar do nervosismo de Dilma, ela saiu no lucro.
Tenho uma teoria mas autoridade zero para sustentá-la. Quem tiver que a descarte ou medite a respeito. Serra caiu no Datafolha e poderá cair no Ibope simplesmente porque um número cada vez maior de brasileiros passou a identificá-lo como o candidato de oposição a Lula. “Ah, é ele?”
No caso, não interessa o que ele diga ou faça. Pouco importa que evite se opor a Lula. E menos ainda que Lula não seja Dilma. O que parecer valer para as pessoas é: esse careca aí, que sorri pouco a ponto de ser advertido pela filha, é o anti-Lula (“o nosso pai”, como preferem os nordestinos). Essa mulher aí sem graça é a “mulher de Lula”.
Se a teoria fizer algum sentido, se encontrar um mínimo de respaldo em estudos ou na experiência acumulada por terceiros, há que se imaginar, portanto, o tamanho das dificuldades a serem enfrentadas por Serra com o início, amanhã, do período de 47 dias de propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão.
O que fazer para brilhar na telinha sem perder votos? E se possível ganhando? Torcer para que Marina Silva atraia mais votos, provocando assim um eventual segundo turno entre Serra e Dilma? E quem disse que segundo turno é garantia de virada? Geraldo Alckmin beliscou menos votos no segundo turno de 2006 do que no primeiro.
Os fados conspiraram contra Marina no sorteio bancado pela Justiça para estabelecer a ordem de entrada no ar dos candidatos. Com pouco mais de um minuto diário de programa de propaganda eleitoral, Marina ficou ensanduichada entre os candidatos do PCB e do PRTB, partidos nanicos nos quais se presta rala atenção.
Quem sabe se Plínio de Arruda Sampaio, o respeitável candidato octogenário do PSOL, não ganhará alguns votinhos para reforçar as chances do segundo turno? O tempo de propaganda de Plínio é menor do que o de Marina. Em compensação, Plínio irá ao ar logo depois de Serra. Bobagem! Não haverá segundo turno por causa de Plínio.
Cada eleição tem sua lógica. E o maior desafio de Serra será contrariar a lógica que orienta esta eleição até aqui. Em 1989, os brasileiros votaram em candidatos que eram contra tudo que ali estava. Collor e Lula foram para o segundo turno. Em 1994, votaram em quem lhes deu o Real. Em 1998, em quem lhes garantiu salvar o Real.
Serra tentou em 2002 ser o candidato da mudança com continuidade. Perdeu. Agora, tenta o contrário: ser o candidato da continuidade com mudança. Deverá perder outra vez. O melhor nem sempre vence. O exercício da democracia nada tem a ver com a escolha dos melhores. Tem a ver com a escolha livre pela maioria.

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>Fuga para frente

Posted on agosto 9, 2010. Filed under: Caratinga, Civil, exame de DNA, fuga, Minas Gerais, namoro, Programa do Jô, Ricardo Noblat |

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Por Ricardo Noblat
A expressão alemã flucht nach vornesignifica “fuga para frente”. Cercado, você ataca – e seja o que Deus quiser. Pisa fundo no acelerador do carro como fez diante do abismo a dupla do filme Thelma e Lousie. Ou então “enfia o pé na jaca” como parece preferir o vice-presidente José Alencar no caso da suposta filha de 55 anos que teve fora do casamento.

Alencar responde desde 2001 a processo de investigação de paternidade na Vara Civil de Caratinga, Minas Gerais. Ali quando era rapaz conheceu Francisca Nicolino de Morais, de apelido Tita, uma enfermeira de 26 anos, e com ela manteve um relacionamento amoroso entre 1953 e 1955.

Segundo testemunhas ouvidas pelo juiz José Antônio Cordeiro, os dois se viram pela primeira vez nas dependências do Clube Municipal da cidade. Passaram então a se encontrar em média três vezes por semana. E às quartas-feiras dormiam juntos na casa de Tita. O namoro era público.

Aos sábados, o casal podia ser encontrado no clube ou no Bar do Geraldo Pereira. Aos domingos, no Bar da Zica. Alencar chegou a pagar o aluguel da casa de Tita e ajudou-a com outras despesas. Até que Tita engravidou e deu à luz a Rosemary em 1955. O relacionamento acabou. Ao completar 42 anos, Rosemary soube quem seria seu pai.

Ela aproveitou uma visita de Alencar a Caratinga em 1998 para dizer-lhe que era sua filha. Na ocasião, Alencar teria comentado que resolveria tudo. Não o fez. Rosemary foi à Justiça e pediu para ser reconhecida como filha dele. Uma vez aberto o processo, os advogados de Alencar tentaram extingui-lo por meio de sucessivos recursos.

Ouvido em juízo, Alencar negou ter tido qualquer relacionamento com Tita e acusou-a de freqüentar “a zona do meretrício” de Caratinga. “Como profissional, oferecia-se a quem a pagasse por seus préstimos”, disse. Ao comentar o caso em “Programa do Jô” da semana passada, insistiu Alencar: “Todo mundo que foi à zona pode ser pai”.

Por duas vezes, o juiz Antônio Cordeiro determinou que Alencar se submetesse a exame de DNA. Em vão. A Jô, Alencar insinuou também que está sendo vítima de chantagem econômica e garantiu que o exame de DNA “não é 100% seguro”. De fato, não é. A margem de acerto do exame é de apenas 99%.

Diz o artigo 2 da Lei 8.560/90: “Na ação de investigação de paternidade, todos os meios legais, bem como os moralmente legítimos, serão hábeis para provar a verdade dos fatos. A recusa do réu em se submeter ao exame de código genético – DNA – gerará a presunção da paternidade, a ser apreciada em conjunto com o contexto probatório”.

Com base na recusa de Alencar em fazer o exame de DNA, no conjunto de provas recolhidas e em jurisprudência consolidada do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, o juiz decidiu em 21 de julho passado que “a investigante” passe a se chamar Rosemary de Morais Gomes da Silva, filha de José Alencar Gomes da Silva.

O delicado estado de saúde de Alencar, que luta há 13 anos contra um câncer, não lhe confere imunidade para agredir grosseiramente o bom senso. Se permanece apto a assumir a presidência da República na ausência do seu titular era de se imaginar que conservasse intacta sua capacidade de avaliar bem os fatos.

Fernando Collor, Orestes Quércia e Michel Temer, por exemplo, são políticos que reconheceram filhos de relações extraconjugais. Paulo Maluf fez questão de se submeter a um exame de DNA para provar que não era pai de uma menina de nove anos. E provou. Fernando Henrique Cardoso é um caso à parte.

Teve um filho com a jornalista Miriam Dutra pouco antes de se eleger presidente. Os dois sempre negaram que Tomas fosse filho de quem é. Mas Fernando Henrique ajudou a sustentar o filho, recebeu-o várias vezes no Palácio do Planalto, visitou-o na Europa e assumiu-o como tal depois da morte de dona Ruth, sua mulher.

Alencar não é bronco. Mas esse episódio fez emergir uma face dele até aqui desconhecida – rude e mesquinha.



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