rodízio

>Barbinhas ralas e bigodinhos verticais

Posted on setembro 15, 2009. Filed under: Arnaldo Jabor, modelos, revistas, rodízio |

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Quero ser feliz. Para isso, preciso de modelos. Há os livros de auto-ajuda, há a felicidade oficial da “mídia”. Quero ser feliz e nas revistas vejo os ídolos modernos malhados, todos sedutores e comedores com a barbinha mal feita de propósito (“six o”clock shave”) pegando as “modeletes” – todas rapadinhas com seus bigodinhos de Hitler no púbis (Brazilian Wax). Barbinhas ralas e bigodinhos verticais são a última moda importada de NY para os garanhõezinhos e namoradas chiques.

Não estou criticando isso; estou é com inveja desta ligeireza, tenho inveja da mediocridade dos objetivos. No Brasil de hoje, a burrice é uma benção. Os homens-celebridades estão cada vez mais seguros de seus haréns, as mulheres mais belas. No entanto, velho romântico, penso: e a conversa de depois? Como manter aquela energia narcisista? Meu avô uma vez me gozou: “Quer namorada inteligente? Vai namorar o San Tiago Dantas… (intelectual da época)”.

Quero ser feliz modernamente, mas carrego comigo lentidões, traumas, conflitos. Sinto-me aquém dos felizes de hoje. Não consigo me enquadrar nos rituais de prazer das revistas. Posso ter uma crise de depressão em meio a uma orgia.

Fui educado por jesuítas e pai severo, para quem o riso era um pecado; ensinaram-me que a felicidade era uma missão a ser cumprida, a conquista de algo maior, que nos coroasse de louros. A felicidade demandava sacrifício, uma luta sobre obstáculos. Olhando os retratos antigos, vemos que a felicidade masculina estava ligada à ideia de “dignidade”, de vitória de um projeto de poder. Vemos os barbudos do século 19 de nariz empinado, os perfis de medalha, donos de um poder qualquer nem que fosse no lar, sobre a mulher e filhos aterrorizados.

Mas eu queria ser mais livre, menos vergado ao peso de tanta responsabilidade severa.

Por isso, quando cheguei aos vinte anos, meu ídolo passou a ser o James Bond: bonito, corajoso, entendendo de vinhos e de aviões supersônicos, comendo todo mundo, de smoking. Ele era livre e mundano? Sim, mas mesmo o James Bond se esforçava, pois tinha a missão de “salvar o mundo”. Era um trabalhador incansável que merecia as louras que papava. Hoje, não. Nossos heróis masculinos não trabalham ou ostentam uma “allure” ociosa e cínica.

A mídia nos ensina que os heróis da felicidade não têm ideal algum a conquistar, a não ser eles mesmos. A felicidade é uma construção de bom funcionamento, de desempenho. O ideal de felicidade é o brilho do prazer sem conflitos, sem afetos profundos – todos sorridentes e simpáticos, porque é mais “comercial” ser alegre do que os velhos heróis que carregavam a dor do mundo. O herói feliz passa a ideia de que não precisa de ninguém. Para o herói da mídia o mundo é um grande pudim a ser comido. Sem compromissos, ele quer sexo e amor, sem amar ninguém. Há um “donjuanismo” consentido, pois as mulheres não defendem mais virtudes castas ao contrario, cada vez mais imitam o comportamento deles. Desejam ser “coisas” se amando. Assim como a mulher deseja ser um “avião”, uma máquina peituda, bunduda, sexy, o homem também quer ser uma metralhadora, uma Ferrari, um torpedo inteligente e, mais que tudo, um grande pênis voador, super-potente, frívolo, que pousa e voa de novo, sem flacidez e sem angustias. O encontro humano virou um modelo de armar, um “lego” de carne. O herói macho A se encaixa em heroína fêmea B e produzem uma engrenagem C, repleta de luxo e arrepios entre lanchas e caipirinhas, entre jet skis e BMWs, num esfuziante casamento que dura, no máximo, três capas de “Caras”.

E de tudo isso emana uma estranha “profundidade superficial” (desculpem o oxímoro), porque este diletantismo raso tem o charme de ser uma sabedoria elegante e “contemporânea

Meu homem é antes de tudo um forte, mas um negador. Para ser feliz, precisa negar, renegar problemas, esquecer, não lembrar das tristezas do mundo. Sua receita de felicidade: não pensar em doenças, ignorar o inconsciente, lamentar a miséria sem nada fazer por ela. O macho brasileiro tem pavor de ser possuído ou tomado pela fraqueza da paixão. Não há entrega; basta-lhe o encaixe.

Meu homem moderno almeja orgasmos longos, ereções vítreas sem trêmulas meias-bombas, meu homem feliz quer ser malhado e esportivo, se bem que informado e cínico, meu homem conhece bem as tragédias modernas, mas se lixa para elas, não por maldade, mas por um alegre desencanto.

Meu homem vive em velocidade. O mundo da internet, do celular, do mercado financeiro imprimiu seu ritmo nele, dando-lhe o glamour de um funcionamento sem corrosão, sem desgaste de material, uma eterna juventude que afasta a idéia de morte ou velhice. Felicidade é um videoclipe; angustia é Antonioni.

Assim, meu homem feliz é casado consigo mesmo.

Mas, chega um dia em que o herói deprime, um dia em que a barriga cresce, o amargor torce-lhe os lábios, o “passaralho” cai e o homem feliz percebe que também precisa de um ideal de encontro, de algo semelhante à tal velha felicidade.

Ele começa a perceber, confusamente, que a verdadeira solidão é apavorante. Daí, ele faz tudo para evitar a ideia de morte, de fim, senão sua liberdade ficaria insuportável.

Com a idade, ele percebe que não há apoteose na vida. Nada se fechará numa plenitude, nada se resolverá inteiramente.

Daí, ele passa a viver um paradoxo: ligar-se sem ligar-se. Ele percebe que precisa do amor ou do casamento ou de mais poder como uma “esperança de sentido”.

Aí, sua tentativa de felicidade fica “em rodízio”, como em uma churrascaria: amor, poder, sexo. Em vez de se conformar com esta mutação sem finalidade, ele tenta satisfazer-se numa eterna insatisfação. Como um James Bond fracassado, como um Tom Cruise envelhecido que jamais perde a pose. Nem para si mesmo. E se gasta nesta “Missão Impossível”.

Autor: Arnaldo Jabor

Fonte: A Gazeta

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