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>O perfil de Blairo Maggi na Revista Veja

Posted on setembro 12, 2009. Filed under: Amazônia, ambientalistas, Blairo Maggi, desmatamento, Grupo Amaggi, Revista Veja, The New York |

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A metamorfose de Blairo O governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, já foi chamado de “estuprador da Amazônia”. Agora, mudou o discurso e a prática. Quer até premiar os fazendeiros que não desmatarem. Por essas e outras, tornou-se xodó de ambientalistas

Em 1956, uma amiga de Lúcia Borges Maggi sugeriu que elas dessem a seus filhos os nomes de uma dupla de cantores sertanejos: Blairo e Clairon. Jamais houve um segundo Clairon (em lugar dele, nasceu uma menina), mas o filho de Lúcia não seria um Blairo necessitado de parceiro para fazer carreira. Atual governador de Mato Grosso, Blairo Borges Maggi é um dos mais ricos políticos brasileiros – e uma admirável exceção por não ter feito fortuna na política. Seu conglomerado, o Grupo André Maggi (nome do pai, que o fundou), movimenta 8% de toda a soja produzida no Brasil e fatura 2,4 bilhões de dólares por ano. Mas não foi a riqueza que tornou Blairo célebre. Foi o terror que inspirava nos ambientalistas do Brasil e do mundo. Ele era considerado o mentor, o executor, o defensor da derrubada da floresta mato-grossense num ritmo chinês para o cultivo de soja. Seu despudor em relação à questão ambiental era tamanho que, quando chegou ao governo, em 2003, ele deu a seguinte declaração ao jornal The New York Times: “Um aumento de 40% no desmatamento da Amazônia não significa nada. Não sinto a menor culpa pelo que estamos fazendo aqui”. Desde 2008, porém, vem-se operando uma metamorfose em Blairo. Tanto que, agora, há ambientalistas entre seus simpatizantes.

Governador Blairo Maggi

Um deles é o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc. Há apenas dezesseis meses, o ministro disse que, se o governo deixasse, Blairo plantaria soja até nos Andes. Hoje, ele já não poderia afirmar o mesmo. No último ano, o desmatamento da Amazônia caiu 47% – e boa parte disso se deve ao estado administrado por Blairo. Entre agosto de 2007 e julho de 2008, foi ceifada a cobertura vegetal de 8 200 quilômetros quadrados da região. De agosto de 2008 a julho deste ano, a devastação caiu para 4 300 quilômetros quadrados. Mato Grosso contribuiu com uma redução de 2 000 quilômetros quadrados. “É por isso que estamos em paz com Blairo”, explica Minc. “No começo da minha gestão, não dei prioridade à política ambiental. Foi o maior erro que cometi”, reconhece o governador, que chegou a ser chamado de “estuprador da floresta”. Antes escorraçados, os movimentos ambientalistas passaram a participar de suas decisões.

Blairo adotou bandeiras caras aos ambientalistas, como a adoção de medidas que desestimulam a pecuária extensiva, uma das principais razões do desmatamento. Também passou a advogar em prol da regularização da situação fundiária dos fazendeiros que atuam nas bordas das florestas – precondição para punir os proprietários que abrem clareiras maiores que o permitido por lei. Ela acabou sendo adotada em maio com a edição da Medida Provisória 458. Falou-se que a metamorfose de Blairo começou em 2008, mas em 2006 ele já emitia sinais contraditórios em relação a seu discurso de “Motosserra de Ouro”, título que lhe foi conferido pelo Greenpeace. Naquele ano, ele persuadiu os grandes esmagadores de soja do país a assinar a “moratória da soja”. Por esse acordo, renovado neste ano, os esmagadores se comprometeram a não adquirir mais grãos oriundos de áreas recém-desmatadas. Há alguns meses, ele abraçou uma proposta da rede varejista Wal-Mart de reproduzir a iniciativa no setor de carnes. E, com o empurrão de Blairo, os maiores frigoríficos do país se comprometeram a não comprar mais bois criados em áreas de desmatamento ilegal. Ah, sim, como se não bastasse, ele se dispôs a fiscalizar o cumprimento do acordo. “Há uma percepção de que Blairo Maggi mudou sua visão sobre o problema ambiental e existe um reconhecimento pelo seu esforço nesse sentido”, diz Steve Schwartzman, da ONG Environmental Defense Fund, com sede em Washington.

Até o fim do ano, o governador de Mato Grosso pretende dar a prova definitiva de sua conversão. Ele quer ser o primeiro governante a compensar financeiramente, em grande escala, quem não devasta. Propõe pagar 150 dólares aos fazendeiros por hectare de floresta preservado. O dinheiro, se tudo der certo, será fornecido por ONGs europeias e grandes empresas. Blairo diz que já tem garantidos recursos suficientes para sustentar um projeto piloto de 105 000 quilômetros quadrados no noroeste do estado, onde a floresta ainda está intacta. Esse sistema, conhecido como Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação (REDD), é defendido por ambientalistas de peso. Blairo tenciona anunciá-lo no fim deste mês durante a Conferência Internacional de Governadores sobre o Clima Global, a ser realizada em Los Angeles. Na edição de 2008 desse encontro, o governador mato-grossense dividiu as atenções da imprensa internacional com o ator Arnold Schwarzenegger, que governa a Califórnia. O REDD lhe renderá novos holofotes. Em dezembro, Blairo fará também uma apresentação do programa na Conferência sobre Mudanças Climáticas que as Nações Unidas realizarão em Copenhague, na Dinamarca. “Blairo esverdeou”, comemora Paulo Adário, um dos líderes do Greenpeace no Brasil.

Vista de fora, a metamorfose do governador parece fruto de romantismo. Não é. Blairo continua a agir como um homem de negócios. Ele entendeu que o discurso de que Mato Grosso é um dos celeiros do mundo não colava mais e que o bombardeio ambientalista poderia comprometer suas empresas e o futuro do estado. Na Europa, por exemplo, alguns dos principais compradores esboçavam impor restrições à importação de soja, carne e outros produtos de Mato Grosso. Piruetas pragmáticas, aliás, não são exatamente uma novidade na biografia de Blairo. Há uma década, quando percebeu que havia compradores dispostos a pagar mais pela soja convencional, forçou toda uma região, o Chapadão do Parecis, situada no noroeste de Mato Grosso, a cultivar apenas esse tipo de lavoura. Para fazer isso, Blairo, que também é um poderoso intermediário nas transações do grão, passou a pagar menos pela soja transgênica. Com isso, exterminou a cultura geneticamente modificada.

Uma das áreas de plantio de soja mais produtivas do país, o Chapadão do Parecis foi desbravado pelo pai de Blairo, André. Nos anos 80, ele começou a adquirir glebas em torno da Fazenda Sapezal, que, hoje, se estende por 70 000 hectares e é gerida de forma tão profissional quanto uma montadora de automóveis. Lá, o piso salarial é de 1 500 reais por mês. Os gerentes ganham 300 000 reais por ano, mais bônus por produtividade. Sapezal é cortada por estradas que, somadas, cobririam a distância entre Brasília e Belo Horizonte. O negócio se viabilizou porque Blairo encontrou uma maneira eficiente de escoar a soja lá produzida para a Europa. Em uma palestra, ouviu que era possível fazer uma hidrovia ligando Porto Velho, em Rondônia, nas margens do Rio Madeira, ao Atlântico. Ele, então, pediu ajuda ao governo amazonense e dinheiro ao BNDES, para tirar a hidrovia do papel e construir um porto na cidade de Itacoatiara, no Amazonas.

Sapezal é o palco de uma das maiores obras públicas de Blairo – que ele ergueu na condição de empresário. O governador e seu pai compraram uma fazenda vizinha à Sapezal e, nela, construíram uma cidade. Sim, você leu certo: uma cidade. Mas não uma cidade favelizada, como tantas que existem na Amazônia. Sapezal é toda asfaltada e iluminada. Tem água tratada, esgoto, escolas e hospitais. Lá, Blairo instalou uma das sedes do seu grupo. Além disso, num ato de fé no capitalismo, vendeu terrenos a seus competidores para que eles se instalassem na cidade. Emancipado há quinze anos, na última safra, o município se transformou no segundo maior centro de comercialização de soja do país. Sapezal resume a saga dos Maggi, que chegaram aos bilhões em apenas uma geração.

Nos anos 50, o gaúcho André Maggi emigrou para o Paraná. Primeiro, explorou madeira. Depois, dedicou-se à agricultura. Bem-sucedido, conseguiu formar o filho engenheiro agrônomo – e o despachou para Mato Grosso. Os sinais do nomadismo da família são visíveis. Blairo classifica sua casa na Fazenda Sapezal como um hotel. Parece mesmo. Ele inclusive deu nome às várias suítes e pôs na porta de uma delas uma placa em homenagem ao presidente Lula, que lá pernoitou. Seu apartamento em Cuiabá tem ares de acampamento. É nesse imóvel que Blairo mantém uma imagem de meio metro de altura de Nossa Senhora Aparecida.

Explica-se: ele diz ter ingressado na vida pública para cumprir uma promessa feita à santa. Há dez anos, descobriu que sua filha Ticiane desenvolvera um câncer linfático. Prometeu a Nossa Senhora Aparecida que entraria na política se ela se curasse. A princípio, pensou em pagar a dívida como suplente de senador. “Depois, tive medo de que Ticiane sofresse uma recaída e resolvi fazer uma carreira de verdade.” Candidatou-se, então, pelo PPS ao governo de Mato Grosso. Era azarão, mas venceu. Em 2006, reelegeu-se e migrou para o PR. Dois anos mais tarde, candidatos apoiados por ele perderam a eleição municipal em Cuiabá e em Rondonópolis, onde fica a sede-mor do Grupo André Maggi. Motivo: durante a campanha, foram divulgados vídeos que mostram aliados de Blairo tentando comprar apoio político. A esse golpe duríssimo se seguiu outro, no plano pessoal: no início deste ano, sua mulher, Terezinha, sofreu complicações graves depois de se submeter a uma cirurgia bariátrica.

Nos dias passados ao lado dela no hospital, Blairo concluiu que a dívida com Nossa Senhora Aparecida havia sido quitada e, portanto, poderia deixar de lado a vida pública. Ele participará da campanha da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, à Presidência da República e, em seguida, voltará a ser empresário em tempo integral. Trabalho não faltará: o Grupo André Maggi abriu uma subsidiária em Roterdã, na Holanda, que lhe agregou oitenta novos clientes, comprou uma esmagadora de soja na Noruega, a Denofa, e se associou à trading japonesa Marubeni, para fornecer 1 milhão de toneladas de soja por ano ao mercado asiático. E Blairo ainda sonha em constituir uma empresa dedicada à criação e abate de frangos. “Nessa nova etapa da minha vida, quero provar que produção e preservação não são excludentes. Esverdeei de verdade”, diz ele.


Felipe Patury, de Sapezal, e José Edward, de Cuiabá Fonte revista Veja

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