Universidade do crime

>Universidade do crime

Posted on outubro 17, 2009. Filed under: Universidade do crime |

>

  • Raphael Curvo

O jornal francês Le Monde escreveu em um de seus artigos, segundo o “Estadão”, que o presidente brasileiro “inventa a universidade brasileira do século 21” e elogia a qualidade do ensino no Brasil. É o mesmo que o dizer das mulheres sobre a dor do parto, considerada por elas a dor maior. É o caso dos franceses com a venda dos aviões Rafale. Desconhecem o outro lado da moeda que é a dor de um chute no saco. É o caso dos nossos estudantes ante a péssima educação a que estão submetidos. E não para por aí, chega ao requinte de dizer que “Lulla trouxe ao ensino superior um sopro de oxigênio afim de superar o desafio da economia do conhecimento”. Santa misericórdia, o que o dinheiro faz. Subverte credibilidade.


É essa “qualidade” das nossas universidades e do nosso ensino mencionada pelo Le Monde, que permite a formação cultural e moral de grande parte dos homens que ocupam cargos de relevância na política brasileira, entre eles o próprio presidente. Estes, permissivos e complacentes com a ilegalidade, aceitam os disparates que afrontam a nossa Constituição federal e toda a ordem jurídica. Os fatos estão todos os dias nos noticiários. É difícil o dia em que as páginas de nossos jornais não imprimam os absurdos emanados dos mais altos mandatários da Nação. E mais, começam a induzir os incautos brasileiros de que as verborragias são lícitas e eticamente corretas.


Fora os absurdos das avaliações do diário francês sobre a nossa educação, temos em território nacional o nosso presidente declarando que a justiça é irresponsável. É ela, via o TCU, que impede o desenvolvimento, com maior força, do povo brasileiro. São as pendengas dos tribunais que não permitem maior “flexibilização” das ações do governo, ou seja, é um atraso na vida do País o nosso sistema jurídico que se apega a “picuinhas”. Por aí se vê que um pouco mais de qualidade dos ocupantes de cargos de relevância e do estudo do presidente, tais afirmações e declarações não teriam campo e, talvez, o Brasil caminhasse mais na legalidade.

Assim, atos como os do MST, casos como o do italiano Batistti, as descaradas campanhas eleitorais em andamento pelo governo, a censura da imprensa, o controle do Congresso, indicação de ministro do qual se desconhece qualquer obra jurídica e que além de pouca vivência jurídica, tem condenações judiciais no Amapá, quintal político do Sarney e por aí vai, dificilmente teriam motivações e espaço para acontecerem. Se acontecem é porque é permitido e aceitável, ou seja, somos um país tipo “meia boca”. Rigor da lei mesmo, só para os mais fracos financeiramente, economicamente e socialmente. Só para ladrões de galinhas.


E por falar em ladrões de galinhas, o nosso sistema prisional é antieducacional. Com tantos exemplos magnânimos do lado de fora dele, a sua procura se torna intensa. Que medo pode ter um jovem da lei? Na sua percepção, o risco vale a pena ante a impunidade que existe. Desconhece, entretanto, o depósito de seres humanos em que se tornou há séculos o sistema prisional do Brasil. E ainda se utilizam da expressão “reeducandos”. Aquilo é uma qualificada universidade fechada do crime. Não tem nada a ver com essa universidade aberta que está todos os dias nos noticiários.


Daí defender uma campanha publicitária, como forma de redução da criminalidade, mostrando o que se passa dentro das prisões para que o jovem tenha real conhecimento desse depósito humano, fruto do desleixo e falta de interesse em resolver, recuperar e melhorar a qualidade de vida dos presos. O interessante é que os mais perigosos são os que vivem em melhores condições de cumprimento de penas. Celas individuais, comidinha especial, hora de banho e sol etc. Os furtadores de galináceos, descumpridores de ordens judiciais e pequenos contraventores são entubados em espaços (?) inexistentes. Estes seres, pecadores da lei, não podem permanecer dentro do mesmo processo de reeducação de criminosos de alto risco.


Há infinita diferença entre os criminosos contumazes, que fazem do crime meio de vida, tanto na universidade aberta como fechada, e aqueles que por razões de impulso ou de necessidade de sobrevivência ou que não tenham o perfil de vida voltada ao crime. Qual a razão de não existir essa dissociação criminal e penal? Por que não separá-los e dar a eles atividades produtivas e prestação de serviços que venham beneficiar a sociedade atingida pelos seus atos? Qual o motivo do governo não promover essa distinção de penalidades? Será que não incomoda ao mandatário mor essa situação de penúria e de incentivo ao desajuste educacional, comportamental e emocional de, por exemplo, milhares de jovens condenados pelo tráfico de entorpecentes? Ou será que é essa a nossa universidade do século 21 que o Le Monde considera de qualidade, a universidade do crime.

Autor: Raphael Curvo é jornalista, advogado pela PUC-Rio e pós-graduado pela Cândido Mendes-RJ. E-mail: raphaelcurvo@hotmail.com – Fonte: A Gazeta


Anúncios
Ler Post Completo | Make a Comment ( None so far )

Liked it here?
Why not try sites on the blogroll...